A Explosão Urbana no Coração da Ópera-Balé Carmina Burana

Em uma montagem histórica considerada fenômeno pop, o B-boy Kapu Araújo rompe as barreiras entre a periferia e o erudito, provando que a arte de rua não só pode como deve pertencer aos grandes palcos teatrais.

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4/8/20265 min read

Fotos: arquivo pessoal

A estreia de Carmina Burana hoje, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, evidencia a capacidade e a sensibilidade de transformar poemas medievais do século XIII, escritos por clérigos em mosteiros Bávaros, em um autêntico fenômeno pop contemporâneo. A obra, adaptada como cantata por Carl Orff em 1937, ganha agora uma releitura vibrante da direção cênica e coreografias de Bruno Fernandes e Mateus Dutra do espetáculo no Municipal ao mesclar a tradição clássica com a energia das artes de rua. Essa fusão reafirma a certeza de que o teatro é, por essência, uma arte democrática, capaz de unir séculos de história à pulsação das periferias em um espetáculo acessível e renovador. Em entrevista ao Sarau de Grã Finos, o premiado artista de breaking Kapu Araújo fala sobre a oportunidade de ocupar um dos principais Teatros do Brasil , aliado a uma récita de renome internacional.

O fenômeno de público que tem lotado a adaptação da ópera-balé de Carmina Burana no Theatro Municipal do Rio de Janeiro é a prova viva de que a arte erudita, quando se permite o diálogo, pulsa com um vigor renovado. Ao abrir as cortinas para o breaking e outras danças urbanas — linguagens historicamente marginalizadas e forjadas no asfalto —, a montagem não apenas adapta a obra de Carl Orff ao mundo contemporâneo, a intervenção artistíca vai em contraponto a polêmica premissa de atores como Timothée Chalamet, que sugeriu que a arte clássica estaria "morta" ou desprovida de interesse para as novas gerações.

A presença de artistas como Kapu Araújo, que traz para o palco a bagagem técnica do ciclo olímpico e a explosão rítmica das ruas, evidencia que o "clássico" só se torna obsoleto quando permanece estático. No Municipal, o que se vê é o oposto: o encontro da técnica rigorosa do breaking com a grandiosidade vocal da ópera não apenas "reacende" o interesse do público, que esgotou os ingressos em tempo recorde, mas também democratiza o acesso e abre portas para que novos artistas periféricos ocupem centros de excelência artística, provando que a arte clássica só sobrevive se for capaz de refletir a pluralidade e a vitalidade do agora.

Entrevista exclusiva do artista Kapu Araújo para o Sarau de Grã Finos

Sarau de Grã finos: Kapu, sua base vem do Breaking como está sendo o processo de adaptar, uma obra erudita escrita em 1937 para a explosividade e a verticalidade do seu movimento, dialogando com a grandiosidade rítmica e coral de Carmina Burana?

Kapu Araújo: Para mim, foi uma surpresa muito grande quando os diretores, Bruno e Matheus, me convidaram para fazer parte dessa obra erudita. Eu, vindo das danças urbanas e do breaking, pensava: 'Não faz sentido nenhum, como vou encaixar o meu estilo dentro de uma obra clássica?'. Mas, na visão dos diretores, eles já tinham vislumbrado a grandiosidade dos movimentos de breaking para determinadas partes da ópera — na cena da Taberna, por exemplo. Foi um desafio enorme trazer vários estilos urbanos e periféricos para dentro da obra, promovendo no Municipal essa integração de culturas. No início, foi difícil visualizar a proposta, mas fizemos vários workshops que mostraram as peculiaridades de cada dança para alcançarmos uma harmonia na execução. No final, o resultado está maravilhoso e agora tudo faz sentido.

Sarau de Grã finos: Você passou pelo renomado Grupo de Rua de Niterói. De lá para cá passou pelos principais campeonatos do mundo, tendo no currículo inclusive uma Olimpíada. Como essas vivências múltiplas influenciam na sua maturidade artística?

Kapu Araújo: Ter passado pelo Grupo de Rua de Niterói, por todo o ciclo Olímpico e pelas batalhas de breaking me trouxeram uma bagagem muito grande para este espetáculo. Eu não estava 'cru'; já tinha intimidade com o palco e com as artes cênicas. Isso me permitiu interpretar melhor o meu estilo para o erudito e também a vivência com outros estilos. Eu sempre vi o breaking como adaptação: o tempo todo temos que adaptar nosso corpo aos movimentos e ao espaço que temos, que muitas vezes não é o apropriado. Por isso, foi muito mais fácil me adaptar e alcançar a harmonia que o diretor imaginou para a cena da Taberna em Carmina Burana.

Sarau de Grã finos: No palco do Municipal, na estreia de Carmina Burana, será o encontro do clássico com o contemporâneo. Qual é a importância simbólica, para você e para a cena do Breaking, de ocupar o Municipal do Rio com essa montagem?

Kapu Araújo: Essa mistura do contemporâneo com o clássico tem uma importância gigante para as danças urbanas. Sinto-me privilegiado por ser um pioneiro em trazer o breaking para o Municipal, abrindo portas para outros B-boys e B-girls — que é o meu sonho e a minha luta diária. Peço a Deus que, assim como se abriram as portas das Olimpíadas, as portas do Municipal também se mantenham abertas para outros dançarinos. Está sendo uma experiência incrível levar a arte de rua para um dos principais palcos do mundo. Meu desejo é que outros artistas de rua ocupem esse espaço e que o público se identifique. Esse é um dos motivos de a montagem estar fazendo tanto sucesso, com ingressos já esgotados

Sarau de Grã finos: Carmina Burana é conhecida por sua força visceral e percussiva. Durante os ensaios, houve algum trecho específico da obra que 'conversou' diretamente com a sua linguagem de pesquisador de movimentos? Como você pretende traduzir a energia dessa montagem através da sua identidade artística?

Kapu Araújo: Houve um trecho dos ensaios muito marcante para mim: quando saímos do playback para o contato direto com os cantores. Foi algo tão lindo, único e emocionante... cheguei a me emocionar quando percebi que aquele som não saía de uma caixa, mas dos cantores ali ao vivo, afinadíssimos, com uma leveza e um controle artístico absurdos. Eu, como pesquisador de movimentos e tendências, fiquei realmente arrepiado. Inspirei-me ali para criar movimentos que trouxessem a explosão das ruas, mas com essa leveza e criatividade. Existe toda uma pesquisa por trás de cada tom de voz, cada letra e cada instrumento. Isso impactou o meu dia a dia, a minha pesquisa de movimento e o sentimento que tento passar através da dança. É uma riqueza que levarei para toda a minha carreira.