‘Agreste’ leva a fábula de Newton Moreno e realidade virtual para o Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia

Projeto cearense, com a atriz Maria Vitória e direção do cineasta Marcelo Müller, propõe duas plateias que vivenciam o premiado texto teatral de perspectivas distintas

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10/7/20263 min read

Fotos: Divulgação

A contação de histórias, no que tem de mais ancestral, sempre dependeu de um elemento fundamental: a presença. Ao redor da fogueira ou sobre as tábuas do palco, a arte cênica constitui-se no encontro entre corpos, vozes e imaginários compartilhados. É nessa encruzilhada entre a tradição oral e a vanguarda digital que se posiciona a experiência cênica expandida “Agreste”, adaptação da consagrada obra “Agreste (Malva-Rosa)”, do dramaturgo pernambucano Newton Moreno. A produção, assinada pelo Grupo Terceiro Corpo (CE) sob a direção de Marcelo Müller e protagonizada por Maria Vitória, estreia no centro cultural Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia, no Rio de Janeiro, propondo um diálogo ousado entre o sertão artesanal e as tecnologias imersivas. A estreia acontecerá no dia 8 de outubro no centro cultural Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia, no Flamengo. A entrada é gratuita, e as apresentações seguem até 18 de outubro.

Texto vencedor dos prêmios Shell e APCA em 2004, a fábula de Newton Moreno aborda a história de amor entre Etevaldo e Maria. O enredo, fincado na aridez moral e geográfica do sertão brasileiro, culmina na reação intolerante da comunidade local diante de uma descoberta revelada após a morte de Etevaldo. Na presente montagem, esse universo ganha uma dimensão espacial e sensorial inédita ao dividir a audiência em dois ecossistemas perceptivos paralelos: enquanto parte do público acompanha a performance presencial no teatro, outra parcela utiliza óculos de realidade virtual para percorrer a paisagem digital e aproximar-se dos avatares da narrativa.

“‘Agreste’ reúne o que buscamos no Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia: um espaço em que criação artística e inovação se encontram para ampliar as formas de contar histórias. Ao levar um texto premiado da dramaturgia brasileira para o palco e para o mundo virtual, o projeto celebra a multiplicidade de vozes que constroem o Brasil e convida o público a questionar o presente e a reimaginar futuros possíveis a partir da nossa própria identidade”, afirma Victor D’Almeida, gerente de cultura do Instituto Futuros.

Um sertão entre o artesanal e o digital

Na montagem, o público se divide entre duas plateias. No teatro, 63 espectadores acompanham Maria Vitória enquanto o universo virtual é projetado ao redor da performance. Em outro espaço, um grupo usa óculos de realidade virtual para ingressar nesse mesmo ambiente, atravessar a paisagem e se aproximar dos personagens. À medida que a fábula se transforma, muda também o lugar aparentemente seguro ocupado pelo espectador.

O elo entre as duas experiências é o corpo de Maria Vitória, Melhor Atriz no Ceará Encena em 2014 e contemplada em 2023 pelo Prêmio Carolina Maria de Jesus, do Ministério da Cultura. Com o auxílio dos óculos de realidade virtual, a atriz incorpora a Contadora, figura que transita entre narradora, bonequeira e avatar, e usa seus movimentos para dar vida aos personagens virtuais da história.

Longe de se reduzir a um mero recurso estético ou demonstração tecnológica, o uso da realidade virtual no espetáculo opera como uma extensão da própria linguagem teatral. O elo entre o concreto e o simulado reside no corpo da atriz Maria Vitória. Ao assumir a figura da Contadora, uma síntese entre a narradora popular, a bonequeira e o avatar digital, a atriz utiliza a captura de movimento para soprar vida aos elementos virtuais. Assim, o sertão tridimensional projetado resgata esteticamente o traço das xilogravuras nordestinas, com inspirações na obra de mestres como J. Borges, e a poética do artesanato em madeira do Cariri cearense. O avanço tecnológico, portanto, não substitui a identidade cultural; antes, molda-se a ela para dar forma a um ambiente imersivo com forte densidade simbólica.

“O que segue essencialmente teatral nesse processo é que, não importa se a materialidade com a qual estamos trabalhando é concreta ou virtual, tudo se constrói a partir das relações. É essa capacidade humana de criar universos. Isso não é feito por uma máquina, mas por seres humanos”, destaca Maria Vitória.

Serviço

Título do projeto: Agreste

Data: 8 a 18 de outubro de 2026

Horário: quintas e sextas, às 19h; sábados e domingos, às 15h e 19h
Local: Petrobras Futuros - Arte e Tecnologia

Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo, Rio de Janeiro – RJ

Classificação Indicativa: 16 anos

Ingressos: gratuitos, com retirada via Sympla

Lotação: 63 lugares, sendo 1 espaço para PCR, 1 assento para pessoa obesa e 1 assento reservado para acompanhante PCR
Ingressos gratuitos:
Sympla

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Joana Aleixo

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jornalista/produtora cultural

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