Aniversário do Maestro: A Arte Revolucionária de Salvator Rosa Celebra o legado de Carlos Gomes

Ausente do palco carioca desde 1946, a obra-prima de Carlos Gomes renasce sob o olhar da diretora Julianna Santos, que revela em entrevista exclusiva os bastidores de um espetáculo visceral sobre arte, paixão e liberdade.

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7/11/202610 min read

Fotos: Saleyna Borge

Celebrar o aniversário de nascimento de Carlos Gomes neste 11 de julho é revisitar a trajetória do primeiro grande gênio da música brasileira a triunfar no exigente circuito europeu. Nascido em Campinas em 1836 e carinhosamente apelidado de Tonico, nome que usava até para assinar suas partituras, o maestro chegou a ser o segundo compositor mais encenado no lendário Teatro Alla Scala de Milão, no séc XIX, ficando atrás apenas de Giuseppe Verdi. Defensor da abolição e aclamado por Dom Pedro II, Carlos Gomes trazia na escrita um apuro visceral e uma intuição cênica única: após o baque da recepção crítica de Fosca, ele respondeu ao público italiano justamente com a energia contagiante de Salvator Rosa, demonstrando uma capacidade extraordinária de se reinventar sem abrir mão de sua assinatura autoral. Resgatar essa obra no dia de seu aniversário é honrar o legado do compositor que transformou a paixão, a política e a alma do século XIX em música atemporal.

Quando a cortina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro se erguer neste domingo, dia 12, para a estreia de Salvator Rosa, o público testemunhará uma das composições mais vibrantes e apaixonadas de Carlos Gomes, que não é encenada no Municipal do Rio desde 1946. A ópera Salvator Rosa, que conta com coprodução do Teatro Amazonas, onde foi encenada antes da aguardada estreia em terras cariocas, promete dar o tom da celebração do aniversário do Theatro Municipal do Rio, no dia 14, com toda a pompa e circunstância que a data merece. Guiada pela visceralidade das telas do próprio pintor-revolucionário barroco que dá nome à ópera, a diretora cênica Julianna Santos revela, em entrevista exclusiva ao Sarau de Grã-Finos, como transformou o libreto em um espetáculo onde a arte e o desejo de liberdade caminham lado a lado. Ela detalha, ainda, como uniu a cenografia não realista, a iluminação dramática e a força dos corpos dos artistas em cena para dar vida a essa história de amor e revolta: uma superprodução que desembarca no palco carioca em um momento de pura magia.

Entrevista com a diretora cênica da Òpera Salvator Rosa, Julianna Santos

Sarau de Grã Finos: Originalmente, a ópera de Carlos Gomes deveria se chamar Masaniello, acompanhando o libreto focado na revolta napolitana de 1647. Contudo, para evitar a confusão com a celebrada ópera La Muette de Portici (de Auber, 1828), que na Itália circulava com o título de Masaniello, a obra de Gomes foi rebatizada como Salvator Rosa. Como essa mudança de foco do líder revolucionário Masaniello para o pintor barroco Salvator Rosa ressignifica a construção do herói e do sentimento do mártir italiano na obra?

Julianna Santos: Eu acho que a ideia do mártir e do herói italiano é expandida para o Salvator Rosa. Ela ganha um novo título nessa obra, mas, durante toda essa história, isso não tira a importância do Masaniello; ela expande a revolução, essa mudança de foco, para o artista que também era revolucionário. Quando a gente lê a biografia do Salvator Rosa e as próprias pinturas do artista, a gente vê esse caráter revolucionário na arte dele. Ele não pintava a nobreza, ele pintava apenas o povo. Ele pintava também mitologia com muita expressividade. A forma da pintura dele, assim como a história dele, é revolucionária. Para mim, Carlos Gomes usa esse mote da revolução popular e encontra uma personalidade com muitos pontos em comum em relação a esse perído histórico ao olhar do povo e coloca a arte como revolução. Uma personalidade que incomodada com o que acontece e se junta ao povo e a Masaniello. Existe uma cumplicidade entre os dois, mas colocando essa luz na arte como processo, como uma expressão revolucionária com todo o caráter que o próprio Masaniello apresenta, de uma forma mais forte de ser, esse líder que arrastou uma multidão, e Salvator trazendo o aspecto da arte para a revolução também. E isso tem a ver com o período em que a ópera foi escrita, dois séculos depois do período em que a história se passa. Mas a mudança de foco no personagem acrescenta a arte como forma fundamental nessa revolução, como o olhar romântico próprio do século XIX.

Foto: Stig de Lavo

Sarau de Grã Finos: Salvator Rosa surge logo após o relativo fracasso de público de Fosca, obra que foi duramente acusada pela crítica de um "wagnerismo" excessivo. Paradoxalmente, Salvator Rosa tornou-se o maior sucesso de Carlos Gomes na Itália, consolidando-o no mercado lírico local. O próprio compositor declarou ter feito Il Guarany para os brasileiros, Salvator Rosa para os italianos e Fosca para os entendidos. Diante disso, como essa oscilação entre a experimentação e a concessão ao gosto do público moldou a trajetória e a identidade de Gomes como um compositor inserido na engrenagem da ópera italiana?

Julianna Santos: Me parece que, depois dessa situação com a Fosca, que não teve sucesso na Itália, apesar de ser uma ópera maravilhosa, especialmente porque ele apostou "as fichas" nessa composição musical, digamos, mais elaborada, o compositor parece ter observado o público ali em volta e acaba se dobrando, de certa forma, sim. Mas a música de Carlos Gomes em Salvator Rosa, tem um caráter muito vibrante, muito apaixonante, moldado ao gosto italiano da época, mas que traz a assinatura do compositor na forma como ele quis contar essa história, na forma da composição, sendo uma música completamente sedutora. A música é muito bem escrita, cruzando com a história de uma forma muito interessante. Carlos Gomes teve ao lado dele um dos principais libretistas da época para compor essa história junto com essa música. Então, eu acho que a melodia cede, de certa forma, ao público, sem abrir mão do que representa o compositor, que imprime ali na música muitas particularidades na escrita que são dele, que é a forma como o artista quer se expor, a forma como o artista quer compor e expressar a sua música, a sua arte, dentro de um processo de enxergar para quem ele está fazendo aquilo naquele momento. E como ele consegue se manter naquele lugar sem abrir mão da sua assinatura, do caráter da sua música, construindo essa música que é absolutamente vibrante, tanto pela temática quanto pela própria construção musical que ele colocou ali em Salvator Rosa.

Sarau de Grã Finos: A que fatores você atribui o imenso sucesso de Salvator Rosa na Itália do século XIX? Seria pelo apelo direto de suas melodias de caráter mais popular e tradicional, em contraste com a densidade de Fosca, ou pela identificação do público com um protagonista que encarna o "artista-herói" e guardião das artes, um arquétipo tão próprio à identidade cultural italiana?

Julianna Santos: Eu atribuo a essas duas coisas o sucesso da ópera, apesar de ser um libreto retratando uma história de 200 anos antes de ser composta, essa encenação traz essa paixão pela terra, mas não só como uma paixão, e sim como esse desejo de união para a construção de outras possibilidades, de uma outra realidade para aquele povo, que era o desejo maior dessa revolução da forma como é retratada e descrita historicamente. Então, é uma história que fala diretamente com as pessoas por se tratar de um desejo conjunto, dessa relação de ver essas duas personalidades heroicas exercendo ali um desbravamento fundamental na época. E a música também, que traça as linhas dramáticas com muitas possibilidades teatrais, contando a história com muito sentido e significado, atrelado tanto por esse amor impossível, que é colocado ali de uma forma que serve às questões revolucionárias, esse amor que é impossível por conta das diferenças e por conta dos papéis políticos que as pessoas assumem ali naquele momento, ao mesmo tempo que traz todo o caráter heroico desse desejo, desse sonho de liberdade. A música e o libreto constroem isso dentro dessas personalidades com as quais as pessoas podem se identificar naquele momento. A gente fazendo aqui no Brasil hoje, ela tem esse caráter universal. Apesar de, naquela época, retratar esses artistas italianos, ela tem esse lugar universal porque fala desse desejo de liberdade de um povo que passa por determinadas situações que não são mais suportadas, em contextos diferentes no mundo, mas com a mesma raiz, de certa forma. Quando eu li o texto, achei completamente contemporâneo diante das dinâmicas sociais que foram e que vêm se delineando na história.

Sarau de Grã Finos: A trajetória histórica de Salvator Rosa no Brasil começou em 1882 primeiramente por Belém, depois Rio de Janeiro, um itinerário que se repetiu em montagens posteriores, como a de 1946. Ao desenhar a circulação da atual montagem, vocês repetiram exatamente essa rota (Belém–Rio). Essa escolha carrega um componente de reverência histórica, quase um amuleto de boa sorte, ou reflete uma dinâmica logística e de formação de público que ainda se sustenta? Qual o mistério dessa programação?

Julianna Santos: Essa ideia de fazer essa ópera foi do diretor artístico do Theatro Municipal do Rio, que fez essa proposta à direção artística de Manaus. Então, eu acho que, além de ter esse caráter de memória, de resgatar, desta vez não foi Belém, mas, sim, Manaus e a Região Norte, no entanto queremos mostrar a trajetória dessa ópera, que vem ainda como uma forma de celebração desses dois teatros importantes, dois polos de extrema relevância da ópera no Brasil que se mantiveram ao longo da história. Manaus, que há anos tem um festival sólido que vem se mantendo, criando uma história na cidade, empregando muitas pessoas, movimentando a cultura, o turismo e viabilizando também a cultura local, então, hoje é um importante polo da ópera no Brasil. E o Rio de Janeiro, que tem esse teatro com essa história maravilhosa, incrível, que comemora o aniversário do Theatro com essa ópera do brasileiro Carlos Gomes. Então, além de resgatar essa memória, ela celebra essa união de coprodução, que é um assunto que os teatros vêm discutindo: o estabelecimento dessas parcerias e a produção conjunta desses dois importantes e históricos polos de ópera no Brasil.

Sarau de Grã Finos: Sendo uma ópera com uma estrutura dramática fragmentada entre vários personagens marcantes, além de exigir a participação ativa do Coro, do Ballet e da Orquestra, qual foi o maior desafio cênico para equilibrar essas forças no palco e manter a narrativa fluida e focada?

Julianna Santos: Para mim, o principal desafio foi entender o fio condutor da história e através da música evidenciar o que está sendo contado. No nosso caso, escolhemos contar a história por meio dos quadros do Salvator Rosa, que são quadros muito expressivos e dramáticos. Relacionamos esses quadros a cada cena com as trajetórias de vários personagens, que foi a forma que encontramos de celebrar o artista e o caráter revolucionário dele dentro dessa história. O libreto se apresenta com essa arquitetura difícil de realização: cada ato tem dois quadros, mudando de espaço completamente. Então, a gente optou por um espaço que não é realista. Porém, através das formas, do conteúdo dos quadros e dos corpos dos artistas, construímos essa atmosfera que conduz, em cada cena, esse fluxo. E liga todos esses elementos da encenação; a luz, o cenário e o figurino, tendo a Revolução Napolitana como mote de tudo. Inclusive a relação de amor que acontece entre Isabella e o Salvator também está colocada ali para sustentar a história dessa luta de poderes, sobre ser esse povo miserável que, naquele momento, encontra-se numa situação de necessária revolta. Então, buscamos esse fio condutor nas obras do Salvator relacionando as imagens contidas nos quadros dele com a expressão de cada uma das cenas e dos personagens, trabalhados através de muitas conversas com os cantores durante os processos criativos de construção de cada um, o que cada um estava levando para unir todas essas pontes, tornando-se, assim uma história única com unidade entre esses personagens, construindo um mundo particular e integrando-os num todo nessa narrativa.

Sarau de Grã Finos: Comandar o retorno de uma obra que não é encenada em um dos principais teatro lírico do país desde 1946 traz uma grande responsabilidade histórica. Como a senhora enxerga o papel desta montagem no resgate e na reavaliação da importância de Salvator Rosa dentro do catálogo de Carlos Gomes?

Julianna Santos: Eu acho que trazer de volta essa ópera é devolver ao público a chance de ouvir com os próprios ouvidos. Trabalhamos com pouquíssimas referências de imagens, quase nenhuma. Então, é uma oportunidade de criar do zero, de ouvir essa música, de ler esse texto e ver como percebemos essa obra hoje. E também, junto do público, ter essa chance de não somente ler sobre a obra, mas de ver com os próprios olhos algo que é lá de trás, mas que, ao mesmo tempo, é novo. É uma oportunidade de habitar essa ponte entre o Gomes do século XIX e o público de 2026. Isso também mostra essa amplitude de Carlos Gomes tanto na música quanto na temática. Essa montagem quebra um pouco esse possível esquecimento e apresenta a obra para as novas gerações como algo vivo, vibrante e que viaja no tempo e no espaço. E aqui estamos nós, em 2026, com a sorte de poder apreciar ao vivo essa belíssima obra de Carlos Gomes.

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Joana Aleixo

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