Bruce Gomlevsky Interpreta o Maior Dramaturgo Brasileiro em ‘Nelson Rodrigues – O Passado Sempre Tem Razão’
O mais carioca dos pernambucanos volta à cena em ‘Nelson Rodrigues – o passado sempre tem razão’. O jornalista Carlos Jardim assina a dramaturgia e a direção do monólogo, no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ)
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5/8/20264 min read


Fotos: divulgação
“No Rio de Janeiro há de tudo - e até cariocas”. “Por enquanto o ser humano é apenas um projeto sempre adiado”. “O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência”. “Em amor, deve-se mentir, sempre!”. Tais pensamentos só poderiam nascer da mente daquele que é considerado o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos: Nelson Rodrigues. Frasista genial, aclamado, odiado, censurado. Respeitado até por seus detratores. Sua obra desperta os mais variados sentimentos, jamais a indiferença. O mais carioca dos pernambucanos volta à cena em ‘Nelson Rodrigues – o passado sempre tem razão’. O jornalista Carlos Jardim assina a dramaturgia e a direção do monólogo que traz Bruce Gomlevsky interpretando o autor de clássicos como ‘Vestido de noiva’, ‘O beijo no asfalto’, ‘Álbum de família’, entre outros. A estreia nacional será no Teatro 2, do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ), até o dia 25 de maio de 2026, em curtíssima temporada.
O monólogo não é uma biografia convencional. Carlos Jardim não conta de forma cronológica a vida de Nelson Rodrigues. O que está em cena é o pensamento, a palavra, a alma de um homem atormentado, contraditório e genial. “Busco mostrar o Nelson que não foge da polêmica, que faz reflexões profundas, mas que também se mostra humano e, às vezes, até vulnerável. A intenção é mostrar seu pensamento intenso, conturbado, que até hoje se mostra vivo e relevante”, explica Jardim, que ficou mais de quatro meses mergulhado no universo do escritor. Nada mais justo que as próprias falas e os escritos de Nelson sejam protagonistas do texto, com diversos pensamentos do autor reunidos por uma costura meticulosa.


O texto que ganha o corpo de Bruce Gomlesvky é quase 100% fiel às falas e escritos originais de Nelson Rodrigues, com pequenas intervenções de Carlos Jardim que, além de mergulhar na obra do homenageado, assistiu a inúmeras entrevistas em vídeo, vasculhou o material disponível em livros e crônicas e foi pinçando trechos até chegar à forma final do texto, que conta com a colaboração do próprio Bruce. “Cheguei à sala de leitura com um roteiro pronto, mas, desde o primeiro momento, deixei claro que estava aberto às sugestões. Bruce é um apaixonado pelo Nelson e sonhava em interpretar o dramaturgo. Conforme fomos lendo e trabalhando no texto, ele foi trazendo trechos incríveis, que se encaixavam com perfeição à ideia original”, exalta Jardim. “Quando li a dramaturgia inicial concebida pelo Carlos Jardim já me apaixonei pelo projeto, mas sugeri que continuássemos em uma busca que pudesse enriquecer ainda mais a dramaturgia. Temos um diretor brilhante e muito aberto para um processo colaborativo”, complementa Bruce.
A relação de Bruce com Nelson Rodrigues vem de longo tempo. Dirigiu espetáculos como ‘Bonitinha, mas ordinária’ e ‘Anti-Nelson Rodrigues’. Interpretar o dramaturgo é um desejo antigo. “Sou apaixonado pela obra dele. Com certeza, um dos maiores dramaturgos do século XX, no mundo. Um profundo conhecedor da psique humana. Autor de estilo único, criador de uma linguagem própria que, corajosamente, coloca em cena e desnuda o que há de mais profundo no inconsciente humano, despudoradamente e de forma amoral”, vibra o ator.
As reflexões, sinalizadas no monólogo mostram como o escritor se mantém cada vez mais atual. Em ano de eleições e Copa do Mundo, a paixão de Nelson por futebol e política e suas opiniões polêmicas entram em cena ao lado de temas sempre presentes na vida do escritor, como amor, adultério, morte, o Rio de Janeiro e suas contradições, o subúrbio carioca e seu cotidiano pulsante. Pensamentos muitas vezes polêmicos, frases que podem gerar identificação ou mesmo repúdio. Nelson nunca temeu dizer o que pensava e está presente no espetáculo em toda sua genial contradição. Para Carlos Jardim, trazer esses questionamentos é muito importante, ainda mais em um momento no qual o país vive tão polarizado: “o que mais me atrai é poder provocar discussões ainda muito pertinentes através do pensamento dele, especialmente no mundo de hoje, em que o diálogo e as dúvidas deram lugar a certezas absolutas e posições radicais que não admitem revisão”.


Bruce Gomlesvky tem experiência em interpretar personagens reais. Já viveu ícones como Renato Russo e Raul Seixas nos palcos, Henfil no cinema, e agora tem estudado todo o universo do escritor, bem como assistido a tudo que existe dele, entrevistas, depoimentos, em uma pesquisa minuciosa. A preocupação, contudo, não é mimetizar Nelson Rodrigues. “Essa questão pode aparecer em alguns momentos em cena, mas o mais importante é trazer a alma do Nelson. Inevitavelmente, será sempre o "nosso Nelson". Um Nelson Rodrigues visto através de "nossas lentes” “.
Nascido em Recife, Nelson Rodrigues veio ainda criança para o Rio de Janeiro, onde tornou-se jornalista, escritor, firmou sua identidade e criou uma obra fundamental para a cultura brasileira. Autor de romances, crônicas, contos, foi no teatro que o autor alcançou seu apogeu com uma série de peças que são referência na dramaturgia criada no Brasil. A crítica nem sempre o aplaudiu. O público chegou a vaiar alguns de seus espetáculos. Muitas vezes, o reconhecimento só veio tardiamente, pois sempre esteve à frente de seu tempo. “O fascinante é que você não precisa concordar com ele para admitir sua genialidade”, vibra Jardim.
Quase cinquenta anos após sua morte, Nelson Rodrigues segue sendo celebrado, montado, debatido, mas permanece, muitas vezes, incompreendido. Embora se declarasse um romântico, ele nunca quis ser amado por todos. Muito pelo contrário, como cunhou em uma de suas mais célebres frases: “toda unanimidade é burra”.