Camila Bauer Reimagina o Clássico Frankenstein para Adultos e Crianças no CCBB-Rio

Em conversa exclusiva, a encenadora revela os bastidores conceituais das montagens que tensionam o controle sobre o corpo feminino e acolhem as infâncias no Teatro I do CCBB-RJ.

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10/21/20266 min read

Fotos: Vilmar Carvalho

Ao tomar como ponto de partida uma das obras mais emblemáticas do romantismo e do horror científico moderno, a diretora e pesquisadora Camila Bauer desdobra a famosa obra-prima de Mary Shelley em um duplo gesto cênico de rara sensibilidade. Em entrevista exclusiva ao Sarau de Grã Finos, a encenadora detalha os bastidores conceituais e poéticos da ocupação no CCBB Rio de Janeiro, que está em cartaz até 15 de novembro, revelando como Frankenstein e Frankinh@ – Uma Estória em Pedacinhos, ambas produções do prestigiado Coletivo GOMPA, utilizam a linguagem intrínseca da dança-teatro para transformar o mito do criador e da criatura em uma profunda investigação sobre às diferenças, pertencimento e autonomia.

Longe de propor uma mera simplificação etária, a diretora articula duas experiências estéticas autônomas e complementares que compartilham a mesma arquitetura cênica e dramatúrgica. Enquanto a versão adulta tensiona o controle histórico sobre o corpo e o desejo feminino ao corporificar a criatura como uma mulher que recusa os moldes impostos por seu criador. Já a montagem infantil aborda a dor do bullying, a perda e a rejeição sob um prisma lírico, provando que o teatro para crianças pode, e deve, tratar de temas densos sem esvaziar os dilemas vividos de cada idade e, principalmente, independente de gênero.

Com uma trajetória intelectual e artística marcada pelo compromisso de usar o palco como disparador de incômodos e reflexões, Camila Bauer reafirma sua vocação para o teatro de pesquisa, a diretora mostra como usou a experiência cênica, unificando luz e o espaço no CCBB Rio, para dar conta de duas montagens tão distintas, mas que se completam, pelos temas abordados, nessa história que é um clássico da literatura mundial. Mais do que soluções técnicas, a conversa revela um olhar afiado para a empatia e as questões do feminino, temas que atravessam a trajetória do Coletivo GOMPA e fazem desta ocupação uma das experiências mais instigantes dos palcos cariocas neste semestre.

Entrevista exclusiva com a diretora Camila Bauer

Sarau de Grã Finos: O que motivou a decisão do Coletivo GOMPA de desmembrar a obra Frankenstein de Mary Shelley em duas produções com propostas cênicas e públicos tão distintos?


Camila Bauer: O que nos interessou foi justamente a possibilidade de perceber como uma mesma obra pode abrir perguntas diferentes conforme o olhar que lançamos sobre ela. Frankenstein é um clássico que permanece vivo porque fala de questões muito humanas: o desejo de criar, o medo da diferença, a necessidade de pertencimento e a dificuldade de reconhecer o outro para além das nossas expectativas. Ao pensar uma versão para adultos e outra para crianças, não queríamos simplesmente simplificar uma história para uma faixa etária. Queríamos criar duas experiências cênicas autônomas, com linguagens e perspectivas próprias. Na versão adulta, nos aproximamos especialmente das relações de poder e do desejo de controlar o outro. Em Frankinh@, a diferença, a perda, a rejeição e a possibilidade de acolhimento ganham uma dimensão sensível e lúdica. São duas portas de entrada para um mesmo universo, que convidam públicos de diferentes idades a se perguntar o que fazemos diante daquilo que não compreendemos.

Sarau de Grã Finos: Como a estética da dança-teatro foi articulada na versão adulta para transformar a figura da “criatura” em um corpo feminino que desafia o controle de seu criador?

Camila Bauer: A dança está na própria constituição do trabalho do Gompa, porque temos uma relação muito próxima com bailarinos e com a criação a partir do corpo. Nas duas montagens, são bailarinos que interpretam o criador e a criatura, mas a palavra ocupa lugares diferentes. Em Frankinh@, há uma atriz narradora em cena e dois bailarinos; no Frankenstein adulto, a narrativa textual é conduzida por duas vozes em off, enquanto um bailarino e uma bailarina dão corpo ao criador e à criatura. Assim, na versão adulta, o conflito se constrói especialmente pela presença e pela relação entre esses dois corpos. A criatura é uma mulher criada por um homem que projeta nela suas expectativas: deseja que ela seja sua companheira e corresponda ao projeto de vida que imaginou. O que nos interessa é justamente a tensão entre esse desejo de moldar o outro e a possibilidade de que esse outro exista com vontade própria. Ao fazer da criatura uma mulher, a encenação também coloca em questão o controle historicamente exercido sobre os corpos, os desejos e as escolhas femininas.

Sarau de Grã Finos: De que forma Frankinh@ traduz temas densos do romance original, como rejeição, alteridade e solidão, em uma linguagem lúdica e acessível para as crianças?

Camila Bauer: As crianças também conhecem a solidão, a rejeição, o abandono, a perda e o desejo de pertencimento. Em Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, Victor sofre bullying e se sente sozinho; é dessa falta, desse desejo de companhia, que nasce a decisão de criar outro ser. A história é contada por uma atriz narradora, enquanto dois bailarinos dão vida ao criador e à criatura. O jogo cênico, o movimento, a fantasia e o humor nos permitem abordar essas questões por uma via sensível e leve, sem esvaziar sua complexidade. É uma convicção que atravessa nosso teatro para crianças: uma obra pode ser mágica, bela e divertida e, ao mesmo tempo, falar seriamente de temas profundos. O importante não é evitar o assunto, mas encontrar uma linguagem que dialogue com a criança e respeite sua capacidade de acompanhar a história e elaborar suas próprias perguntas.

Sarau de Grã Finos: Quais pontes conceituais ou estéticas (na cenografia, na iluminação ou na dramaturgia) conectam os dois espetáculos dentro desta mesma ocupação no CCBB?

Camila Bauer: As duas montagens compartilham, antes de tudo, uma mesma ideia de incompletude. Tanto no espetáculo infantil quanto no adulto, Victor experimenta uma falta, uma solidão, e decide criar alguém que possa preencher esse vazio. Em Frankinh@, ele sofre bullying e deseja uma companhia; na versão adulta, cria uma mulher sobre a qual projeta seus desejos e seus planos de vida. A criação nasce, nos dois casos, de uma necessidade afetiva, mas também abre perguntas sobre a liberdade daquele que foi criado. Essa aproximação não é apenas conceitual. Os espetáculos utilizam o mesmo espaço cenográfico, com pequenas diferenças de detalhes, e compartilham um desenho de iluminação bastante semelhante em várias cenas. Isso permite uma única montagem técnica no teatro para apresentar as duas versões. Há ainda uma relação importante na dramaturgia dos corpos: em ambos, bailarinos interpretam o criador e a criatura, embora a narração se organize de maneiras diferentes. Gosto de pensar que o público pode reconhecer um mesmo universo material e, ao mesmo tempo, perceber como ele se transforma conforme o olhar que lançamos sobre a história.

Sarau de Grã Finos: Como a sua trajetória acadêmica e a bagagem de projetos investigativos do Coletivo GOMPA, como Meretrizes e A Menina dos Olhos d’Água, influenciam seu olhar de diretora ao reimaginar Frankenstein?

Camila Bauer: Minha trajetória como professora, pesquisadora e encenadora está profundamente ligada ao desejo de investigar linguagens e de pensar o teatro como espaço de perguntas. Mas é importante situar a cronologia: Frankenstein e Frankinh@ vieram antes de Meretrizes e de A Menina dos Olhos d’Água. Não são, portanto, trabalhos anteriores que influenciaram a criação dos Frankenstein; vejo neles questões que continuaram a se desdobrar na pesquisa do Gompa. No Frankenstein adulto, interessa-me particularmente o feminino: o que acontece quando um homem cria uma mulher e espera que ela corresponda ao seu desejo, como se pudesse determinar quem ela deve ser? Essa questão reaparece, por outro ângulo, em Meretrizes, ao olhar para mulheres colocadas à margem e para as categorias que a sociedade impõe ao feminino — da esposa ideal à prostituta. São formas de enquadramento que restringem a liberdade de escolha e produzem exclusão, inclusive política. Já A Menina dos Olhos d’Água, nosso trabalho mais recente, se conecta a Frankinh@ pela seriedade com que pensamos o teatro para crianças. Nele, tratamos de uma catástrofe ambiental, de deslocamento e de perda, sem abrir mão de um universo poético e imaginativo. Para mim, não existe contradição entre fantasia e densidade: a criança pode acompanhar temas difíceis e merece ser considerada uma espectadora sensível e inteligente. O que une essas criações é a busca por uma forma cênica capaz de acolher questões humanas complexas, sem reduzir a experiência do público a respostas fáceis.

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Joana Aleixo

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