De Manuscrito Esquecido a Fenômeno Pop: A Revolução de Carmina Burana no Municipal do Rio

Sob a regência de Victor Hugo Toro, ópera-balé pulsante une Bosch, Passinho e Drag Queens em grande estreia super aguardada.

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4/6/20264 min read

Fotos: Daniel Ebendinger

O que separa um mosteiro bávaro do século XIII de uma boate pulsante no Rio de Janeiro contemporâneo? A resposta reside na atemporalidade de Carmina Burana. A obra, que retorna ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2026 após o estrondoso sucesso de público no ano anterior, não é apenas um concerto; é uma celebração visceral da experiência humana, onde o sagrado e o profano dançam sob a regência do maestro chileno Victor Hugo Toro. Essa novíssima versão, consolida-se como a mais audaciosa: uma obra que começou em latim medieval e dialetos antigos e agora encontra sua voz definitiva na mistura rítmica e plural das ruas do Rio de Janeiro. As apresentações acontecem nos dias 8, 9, 10 e 11, às 19h, e no dia 12, às 17h.

Com Coro e a Orquestra Sinfônica da casa e reunindo mais de 300 profissionais no elenco com atores, bailarinos e artistas de diversas modalidades como Vogue, Burlesco, Pole Dance, Breakdance, Passinho, Arte Drag e até Passista, além de duzentos e trinta figurinos. A montagem, que abre a temporada lírica do Theatro, com Patrocínio Oficial da Petrobras, é apresentada em formato de ópera-balé e, marcada por estéticas contrastantes, aposta em uma leitura cênica contemporânea da obra.

Originalmente uma coleção de poemas goliardos, clérigos "bon vivant" que celebravam o vinho e a carne, o manuscrito encontrado no mosteiro de Benediktbeuern, em 1803, sobreviveu ao tempo para que Carl Orff, em 1937, o transformasse na cantata mais famosa do mundo. O nome da obra, inclusive, faz referência direta a esse local: em latim, Carmina significa "canções" e Burana é o adjetivo para "Bura", o nome latino da região de Beuern. Portanto, o título significa "Canções de Beuern". Desde sua estreia no Municipal do Rio em 1994, sob a batuta de David Machado, Carmina Burana já passou por diversas leituras. No entanto, a montagem carioca de 2026 desafia a tradição ao ser apresentada como uma ópera-balé, rompendo o estatismo dos corais tradicionais.

“Eu estou muito feliz em retornar ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, não só porque eu tenho um belíssimo relacionamento artístico e profissional com os corpos artísticos, mas também, porque tenho esta oportunidade de remontar e apresentar novamente o espetáculo Carmina Burana. Lembro muito bem como estava lotada a casa, como o público foi ao delírio em cada uma das apresentações que fizemos no ano passado. E fico muito feliz em poder, novamente, apresentar este espetáculo com mais récitas do que em 2025. Tenho certeza que os ingressos vão esgotar e que será uma grande experiência artística”, celebra o maestro Victor Hugo Toro.

O espetáculo é um mosaico de referências que atravessam séculos de história da arte

A primeira parte, “Primo Vere”, que celebra a chegada da primavera e o despertar da natureza, tem sua estética inspirada nos retábulos do flamengo primitivo, em especial na obra de Hieronymus Bosch, “O Jardim das Delícias". A segunda metade do espetáculo, “In Taberna” e “Cours D’Amour”, transporta a ação para o cenário de uma boate contemporânea. Esta ambientação oferece uma visão satírica de um mundo hedonista e da frustração amorosa que acompanha suas relações. O ponto de maior destaque da produção, nesta parte, é a integração de diversas linguagens de movimento. Em cena, haverá também o uso da pintura do Museu Nacional de Belas Artes, de Pedro Américo: “A Noite”, acompanhada dos gênios do estudo e do amor (1883). E na versão de 2026, uma imagem da artista carioca Marcela Cantuária faz parte do projeto.

"Sendo Carmina Burana originalmente uma cantata cênica, mas normalmente apresentada em forma de concerto ou coreografada para balé, a nossa montagem apresenta características praticamente inéditas: foi construído um enredo que faz a ligação entre os diversos poemas que compõem a obra, formando um espetáculo de estrutura contínua, com participação cênica tanto do coro como dos solistas, além de bailarinos e artistas das mais diversas especialidades e procedências. Não seria inadequado dizer que estamos apresentando a Carmina Burana em formato de ópera-balé”, diz Eric Herrero, diretor artístico da Fundação Teatro Municipal.

Os rebeldes da batina: os autores por trás de Carmina Burana

Carl Orff transformou os manuscritos na cantata mais famosa do mundo em 1937, não obstante, a alma da obra pertence a um grupo de intelectuais nômades que viveu à margem da sociedade medieval: os Goliardos. Composta majoritariamente por autores anônimos, a coleção de poemas é o registro vivo de uma juventude que, entre os séculos XII e XIII, já desafiava as estruturas de poder: Em vez de hinos sagrados, os goliardos utilizavam a poesia para criticar abertamente a hipocrisia da hierarquia eclesiástica e celebrar o profano exaltando sem pudores os prazeres da carne, a mística do jogo e as virtudes ou vícios do vinho.

Os goliardos eram, em sua essência, figuras paradoxais. Tratava-se de jovens clérigos, estudantes de teologia e monges errantes oriundos das primeiras grandes universidades da França, Alemanha, Itália e Inglaterra. Detentores de uma educação refinada e domínio absoluto do latim, eles optaram por um estilo de vida marginal, trocando a estabilidade dos mosteiros por uma existência itinerante e boêmia. Embora o latim medieval seja a base do manuscrito, o texto é um verdadeiro "mosaico linguístico". É comum encontrar passagens que se fundem ao alemão antigo, ao francês e ao provençal, evidenciando como esses estudantes absorviam a cultura das regiões por onde passavam.

"Sair do óbvio foi a escolha mais acertada... especialmente por colocar nos holofotes tanta diversidade em um único espetáculo." — Clara Paulino, Presidente da Fundação Teatro Municipal.