Do clássico à representatividade: Escola Estadual Maria Olenewa inicia contagem regressiva para os 100 anos
Em entrevista exclusiva, o diretor Hélio Bejani detalha como a instituição de balé mais antiga do país equilibra o rigor da tradição russa com a modernidade dos palcos, revelando os preparativos de um livro comemorativo e um espetáculo de gala para o centenário em 2027.
ENTREVISTASGRÃFINÍSSIMO
5/5/20265 min read


Fotos: Daniel Ebendinger
Rumo ao centenário em 2027, a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (EEDMO), instituição mais antiga do país em atividade e braço acadêmico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, celebra seus 99 anos consolidada como um pilar de resistência e excelência no balé clássico. Em entrevista exclusiva, o diretor Hélio Bejani revela os preparativos para o marco histórico dos 100 anos — que incluem um livro comemorativo e um espetáculo especial no palco principal do Municipal— e reafirma a missão da Escola em equilibrar o rigor técnico da tradição russa com a urgência de um currículo multirracial e versátil, capaz de formar bailarinos de alto rendimento para os palcos e mercados globais.
Desde a sua fundação em 27 de abril de 1927, a escola é pública e gratuita. Inicialmente com o nome de Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal foi somente em 1982 que ganhou o nome da bailarina russa Maria Olenewa, grande idealizadora e primeira diretora da Instituição. Integrante da companhia de Anna Pavlova, Olenewa se apaixonou pelo Brasil e convenceu o governo da época sobre a necessidade de uma escola oficial. Ela trouxe a rigorosa metodologia da escola russa, que moldou a identidade técnica da instituição. Sua criação foi um marco para a profissionalização da dança no Brasil, que até então dependia majoritariamente de companhias estrangeiras que passavam pelo Rio de Janeiro. O processo de seleção é altamente concorrido, com exames de aptidão física e técnica rigorosos. A EEDMO formou os maiores nomes da dança brasileira, como Ana Botafogo, Cecília Kerche, Nora Esteves, Áurea Hammerli e Roberta Marquez.


Entrevista exclusiva do diretor da Escola Estadual Maria Olenewa, Hélio Bejani, ao Sarau de Grã Finos.
Sarau de Grã Finos: Estamos a um ano do centenário da Escola. O que a atual gestão projeta como o principal marco para os 100 anos da EEDMO? Existe algum projeto de modernização ou de resgate histórico que será o grande destaque dessa celebração em 2027?
Hélio Bejani: Reconhecemos que os 100 anos da Escola é uma data extremamente significativa, marcando um importante capítulo na história da dança brasileira. Ao longo desse século, a EEDMO tem se destacado na formação de artistas excepcionais e na construção de uma rica trajetória. Para celebrar essa data histórica, estamos desenvolvendo diversos projetos. Entre as iniciativas, destacamos a realização de encontros entre alunos e ex-alunos, o desejo da produção de um livro comemorativo que revele nossa trajetória e um espetáculo especial no palco principal do Theatro Municipal.
Sarau de Grã Finos: A EEDMO é o pilar mais tradicional do ballet clássico no Brasil. Como o senhor enxerga a integração de novas linguagens, como as danças urbanas e o contemporâneo, na formação de um bailarino clássico hoje para que ele atenda às demandas das produções modernas?
Hélio Bejani: É fundamental que a escola esteja alinhada às demandas contemporâneas. Nossa missão principal é formar bailarinos clássicos de excelência, prontos para trabalhar em qualquer palco e companhias ao redor do mundo. No entanto, o mercado profissional atual requer bailarinos versáteis, capazes de transitar entre diversas linguagens corporais. Precisamos reconhecer que nossos alunos seguirão caminhos distintos: alguns atuarão em companhias de dança clássica, enquanto outros se destacarão em musicais, shows, carnaval ou como educadores. Por isso, oferecemos um currículo abrangente que inclui disciplinas complementares, como dança contemporânea, dança afro-brasileira, dança de caráter e dança / interpretação. Nosso objetivo vai além de apenas formar bailarinos, queremos contribuir para a formação de cidadãos que possam impactar o mundo.


Sarau de Grã Finos: Considerando que a Escola Maria Olenewa foi a base de formação para grandes nomes que conquistaram os palcos do mundo, como Márcia Haydée, Roberta Marquez entre outros, como a Instituição consegue preservar esse padrão de excelência ao mesmo tempo em que se adapta às novas exigências físicas e técnicas do mercado internacional da dança?
Hélio Bejani: Realmente formamos nomes que muito nos orgulham como Bertha Rosanova, Tamara Capeller, Eleonora Oliosi, Nora Esteves, Isabel Seabra, Bethania Nascimento, recentemente os atuais primeiros bailarinos do Ballet do Theatro Municipal: Claudia Mota, Márcia Jaqueline, Cicero Gomes, Juliana Valadão e um grande universo de profissionais que atuam no Brasil e exterior, tanto como bailarinos clássicos como em outras linguagens. É uma linha muito tênue: preservar tradição e estar atento à modernidade, reconhecer e valorizar as diferenças físicas e artísticas e ao mesmo tempo manter a excelência e as exigências do ballet clássico. Acredito que nosso maior mérito é estarmos centrados no objetivo central da Escola e não perdermos este foco: trata-se de uma escola profissionalizante de ballet clássico. Então esta é a base do nosso trabalho, adaptamos, flexibilizamos, entendemos as exigências, porém não perdemos o foco de que somos uma escola de formação de alto rendimento. Essa sólida base nos permite reconhecer e valorizar as diferenças artísticas, mantendo nosso compromisso com a formação profissional de alto nível.
Sarau de Grã Finos: De que maneira a Escola Maria Olenewa tem trabalhado para democratizar o acesso e modernizar seus critérios de avaliação, garantindo que talentos de diferentes origens e biotipos encontrem um espaço de formação técnica de excelência e representatividade?
Hélio Bejani: Existem muitas escolas de ballet e de dança na cidade e no Estado, cada uma com seu objetivo. Então, não podemos perder o foco central da Escola profissionalizante de dança. Para tentar democratizar o acesso possuímos uma série de parceria com projetos sociais espalhados por diversos lugares do Rio de Janeiro. Neste sentido, os professores nos indicam “alunos talentos” que passam por exames de seleção e aptidão física. Isso permite que recebamos alunos oriundos de diferentes lugares do Estado e arredores. Para exemplificar temos alunos da baixada fluminense (Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita), da região litorânea (Niterói, São Gonçalo), Volta Redonda e de outros Estados como Minas Gerais e São Paulo, sem contar com os oriundos de diversas comunidades do Rio de Janeiro como a Maré, Vila do Cruzeiro, Penha, Campo Grande, entre outras. Para além das diferenças de localização geográfica e classe social, a Escola atual é multirracial. A busca e a valorização da representatividade é uma constante em nossa Escola. Sempre trazemos histórias e próprios ex-alunos oriundos de bairros ou comunidades, alunos negros ou que enfrentaram alguma dificuldade em sua formação para que eles deem testemunho e sirvam como referência para as jovens gerações e mostrem que é possível. Por conseguinte, democratizando o acesso, os critérios de avaliação também são modernizados. A avaliação é individual, nos interessa o desenvolvimento do aluno dentro do que é esperado para o ano no qual ele se encontra. A avaliação não é comparativa com o outro. É óbvio, como disse, não podemos perder o foco do objetivo central desta escola, todo o processo avaliativo visa formar profissionais de excelência. Contudo, reconhecemos e valorizamos tanto os que possuem físicos privilegiados para o ballet, como aqueles que possuem um grande potencial artístico. Ao mesmo tempo, pensando em termos raciais, reconhecemos e valorizamos as diferenças ao longo do processo avaliativo.