Do Corujão ao Municipal: Gabriel Lopes transforma sonho de infância em protagonismo no palco carioca
Inspirado por Billy Elliot e apoiado pela família, bailarino formado no Bolshoi estreia como Basílio em Don Quixote ao lado do Ballet do Theatro Municipal do Rio.
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8/19/20267 min read


Fotos: arquivo pessoal
A trajetória do bailarino paulista Gabriel Lopes, natural de Mogi das Cruzes, lembra a força das vocações genuínas que desabrocham onde menos se espera. Despertado aos oito anos ao assistir uma sessão do filme Billy Elliot no clássico Corujão da TV Globo, Gabriel transformou o impulso de infância em destino: formou-se na prestigiosa Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, fez as malas para se lapidar nos palcos da Rússia e hoje vive o ápice de sua maturidade artística, encarnando o vibrante Basílio no espetáculo Don Quixote, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Em entrevista exclusiva ao Sarau de Grã-Finos, o renomado bailarino revelou que, ao contrário do clássico cinematográfico que o inspirou, seu divisor de águas não veio acompanhado da rejeição familiar, mas sim pelo apoio irrestrito e intuitivo de seus pais — um motorista e uma merendeira. Livre dos estigmas, Gabriel alimentou a determinação que o levou a dividir o palco com mitos da dança, a russa Natalia Osipova, a quem ele descreve como: “Um espírito transcendente". O alinhamento perfeito nos ensaios ao lado da primeira bailarina do Municipal do Rio Juliana Valadão, a quem Gabriel cobre de elogios pela experiência e dedicação da artista no papel de Kitri. Gabriel reflete, ainda, não apenas sobre o rigor técnico absorvido na nascente do balé clássico mundial, a Rússia, mas toda a elegância e a serenidade com que se deve conduzir a arte que se propõe a propagar. .
Para a temporada carioca de Dom Quixote, que estreia dia 20 e ficará em cartaz até dia 29 de agosto, sob a direção geral de Hélio Bejani, Gabriel enxerga na dança um respiro necessário em tempos de hiperconexão. Ao definir o balé como um "cinema ao vivo", o bailarino reforça o papel insubstituível da presença humana nos palcos — onde a orquestra, os cenários operados manualmente e a entrega física dos corpos criam um elo único com a platéia, quase que um novo mundo onde tudo é possível. Seu objetivo maior ao pisar no Theatro Municipal é claro: transmutar a rotina de mais de duas mil pessoas por noite, transportando o público para a Sevilha mágica, alegre e inesquecível de Don Quixote.


Entrevista com o bailarino Gabriel Lopes para o Sarau de Grã Finos
Sarau de Grã Finos: Você sempre cita a influência do filme Billy Elliot no seu despertar para se tornar um bailarino. Como foi investir nessa profissão? Você teve apoio imediato da família e amigos? Você sentiu algum preconceito ao longo da sua trajetória?
Gabriel Lopes: Eu sempre cito o Billy Elliot porque foi o filme que me despertou o sonho e me mostrou que a profissão era possível. Mas a minha história é diferente da história do filme. No filme, o menino passa por questões de preconceito da família e amigos. No meu caso foi diferente, meus pais sempre me apoiaram, o que foi uma surpresa porque eu sou o primeiro artista da família. Meu pai é motorista e minha mãe é merendeira e, desde o início, eles sempre me apoiaram. Porque poderia ser entendido como um 'fogo de palha' de criança mesmo, mas eles atenderam àquela vontade e me incentivaram para saber até onde iria. E isso foi primordial para todo o processo. Meus pais sempre me apoiaram muito, até hoje. No início foi mais uma intuição, porque eles nem sabiam que a profissão era possível. Em relação ao preconceito, eu nunca percebi. Porque eu sempre coloquei tanto na minha cabeça que era aquilo que eu queria, que eu contava esse sonho para as pessoas no colégio, meus conhecidos... às vezes tinha alguns comentários infelizes, mas eu não me lembro de ter sofrido bullying. Eu coloquei tanto na minha cabeça que eu iria ser bailarino que não me importava com o que as pessoas achavam. Esse filme ficou na minha cabeça e nele eu vi que era possível ser bailarino, e somente isso importava.
Sarau de Grã Finos: Basílio é um dos personagens mais carismáticos e exigentes do repertório clássico, conhecido pelos grandes saltos e pela vivacidade em cena. Como está sendo a experiência de interpretar esse protagonista pela primeira vez como convidado do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro?
Gabriel Lopes: Sim, é um personagem do repertório do balé clássico que exige muito dos bailarinos. Não apenas dos personagens principais, mas de todo o corpo de baile. Todas as cenas são muito técnicas, muito fortes, a dança é exuberante, é quente, é exigente para todos que estão em cena. Para mim tem sido uma experiência muito gratificante e transformadora para a minha carreira estar desenvolvendo esse personagem no Theatro Municipal do Rio de Janeiro como convidado deste espetáculo, que é o meu preferido de todo o repertório clássico e de muita gente. Dom Quixote é muito cativante, então tem sido desafiador, assim como tudo que é bom na vida, mas tem sido um processo muito gostoso e engrandecedor. Com metas bem estabelecidas assim, a gente sempre consegue alcançar um resultado satisfatório, e é isso que eu espero entregar no palco: um bom resultado para o público e para o Theatro Municipal.
Sarau de Grã Finos: A sintonia entre o casal Kitri e Basílio é essencial para o sucesso de Dom Quixote. Como tem sido a construção dessa parceria nos ensaios com a primeira bailarina Juliana Valadão para transmitir essa cumplicidade no palco?
Gabriel Lopes: Meu entrosamento com a primeira bailarina Juliana Valadão foi muito natural. Ela é uma pessoa muito tranquila, muito serena. Gosta muito de trabalhar, então, desde os primeiros ensaios, a gente já começou a organizar umas coisas de pas de deux e a gente conversa bastante para decidir o que está mais confortável para ela: onde eu posso segurar ela, jogar ela, descer ela com mais calma. Então essa comunicação é muito importante para poder decidir o pas de deux para o dueto, de modo que possamos fazer o melhor para o público. Ela é uma bailarina super experiente, da casa, que já dançou vários balés, então, como ela está muito acostumada com o palco e com o enredo, foi muito tranquilo e os ensaios têm sido muito prazerosos. Hoje é nosso último ensaio, o ensaio geral, e nós vamos colocar no palco tudo aquilo que estamos ensaiando em sala de aula.


Sarau de Grã Finos: Você se formou na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil e construiu parte da sua carreira na Rússia, além de ter dividido o palco recentemente com Natalia Osipova. De que maneira esse repertório e a bagagem internacional moldaram a sua maturidade técnica e interpretação cênica para esta temporada?
Gabriel Lopes: A experiência de eu ter me formado no Bolshoi foi o grande divisor de águas da minha carreira, porque lá eu tive uma excelente formação com o meu professor, que foi quem deu essa base de dança clássica masculina. Ter ido trabalhar na Rússia foi um marco na minha carreira porque a Rússia é um país que impulsionou o balé com todas as suas forças. Eu fui aprender na nascente. As minhas grandes referências que eu sempre assisti estavam por lá, ou passaram por lá. Estão marcadas nas ruas, nas praças, nos prédios, dentro do coração das pessoas. A Rússia é um mergulho dentro do conhecimento, da pesquisa, da história. E ter dançado com a Natalia Osipova me deixou um pensamento assim, único. Porque foi a primeira vez que eu dancei com uma estrela desse tamanho e grandiosidade. Foi a primeira vez que eu vi uma bailarina transcender. Incorporar o personagem... eu lembro que olhava para ela e não via uma figura humana em cena, uma bailarina, uma mulher. Eu via um espírito, e isso me deixou muito impactado, porque o personagem de Giselle no segundo ato é um espírito. Eu vi ali do meu lado um corpo astral, uma expressão sem vida. Então é essa maturidade, esse conhecimento artístico... Nossa, eu passei meses assim sem conseguir falar muito sobre essa experiência. Eu estava ainda tentando entender toda a dimensão do que tinha se passado diante dos meus olhos. Então, trazer essa experiência que eu tive com uma das maiores bailarinas da atualidade e toda essa passagem pelo balé clássico, acadêmico e russo tem sido extremamente importante para desenvolver o que eu crio na minha cabeça, estudar esse personagem e colocar no papel, passar para o corpo até que chega o momento de colocar ele em cena e ver como ele vai reagir em cena com o corpo de baile, com a orquestra e com o público. Então eu estou muito ansioso para essa experiência com o público. E, como são quatro espetáculos, a dança é viva, é feita por pessoas, o que é algo mais incrível. Estamos precisando muito disso neste momento em que estamos usando muita tecnologia, inteligência artificial; nós estamos precisando mais e mais de coisas que sejam feitas manualmente. E o balé é uma arte essencial para esse momento: é cinema ao vivo. Se o cenário sobe, é porque alguém puxou; se tem música, é porque tem alguém tocando; se a história está sendo contada, é porque tem alguém ao vivo em pé no palco. Então é uma arte muito essencial.
Sarau de Grã Finos: Qual mensagem ou sentimento você espera deixar no público que irá assisti-lo no Theatro Municipal?
Gabriel Lopes: Eu sempre digo que a minha real missão como artista de balé... eu não posso mudar todas as pessoas, mas espero que algumas pessoas da plateia saiam desse espetáculo com uma sensação de que algo mudou. E vão para suas casas, vão descansar, vão conversar com seus amigos e compartilhar essa experiência. Eu sempre penso que cada noite aqui no Theatro são mais de dois mil lugares. Então vão ser duas mil vidas que pararam sua rotina por um instante para estar ali naquela noite e sentir algo. Então eu sempre tento, pelas maneiras que são possíveis para mim, fazer com que o espetáculo transmute, transporte a pessoa — neste caso, para Sevilha, para uma história envolvente, bem-humorada, que acaba no final dando tudo certo. Espero que o público possa ir para casa sorrindo. Porque esse balé é alegria do início ao fim. E com uma lembrança muito gostosa daquele momento no Theatro Municipal com arte. E arte feita com pessoas reais, ao vivo e a cores.