Do discado ao algoritmo: a jornada de 26 anos do Curta o Curta na difusão do audiovisual brasileiro.
Criador do Curta o Curta, Guilherme Whitaker retoma Cineclube presencial no Rio, defende a curadoria contra a "bolha das redes" e relembra o papel da plataforma na formação de grandes cineastas do país.
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8/26/20268 min read


Fotos: divulgação
O Curta o Curta volta a ocupar a tela — e a calçada — da Cinelândia. A partir de 1º de setembro, o projeto promove uma série de seis sessões gratuitas e mensais no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). Cada encontro reunirá produções da nova geração do audiovisual brasileiro, debates com realizadores e um convite para estender a conversa na tradicional Banca do André. Com apoio da RioFilme — via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) —, a iniciativa marca a retomada do lendário Cineclube Curta o Curta.
Criada há 26 anos pelo produtor e realizador Guilherme Whitaker, a plataforma acompanhou de perto as profundas transformações do cinema nacional e global frente à democratização do audiovisual. Se por um lado a revolução digital facilitou a produção e a distribuição de conteúdo, por outro, Whitaker alerta que o excesso de informação tornou a difusão e a projeção de novos talentos um desafio ainda maior.
Em entrevista exclusiva, o fundador defende o papel crucial da curadoria e dos cineclubes para furar as "bolhas" dos algoritmos, conectar realizadores a formadores de opinião e garantir vida longa a produções independentes. Histórico ponto de partida para cineastas renomados como Laís Bodanzky, Walter Salles, Fernando Meirelles e Kleber Mendonça Filho — que iniciaram suas trajetórias nos curtas —, o projeto reafirma, neste novo capítulo, a força da exibição presencial e do debate coletivo como espaços de resistência cultural.
Entrevista Exclusiva com o cineasta Guilherme Whitaker


Sarau de Grã Finos: O Curta o Curta antecipou o modelo de streaming no Brasil quando a própria internet ainda dava seus primeiros passos por aqui. Vinte e seis anos depois, em um mundo saturado por telas e algoritmos, qual é o significado simbólico e prático de trazer o projeto de volta para a experiência presencial do cinema e o debate de calçada?
Guilherme Whitaker: De fato, começamos em 2000 e somos o primeiro site a exibir filmes na internet — no tempo em que a internet era muito lenta, discada, uma coisa bem primária. Mas já era um deslumbre de futuro que depois se confirmou em quase tudo; só que, naquela época, não. A gente sempre teve no Brasil uma questão histórica: aqui se faz muita produção, se fazem muitos filmes — o que é ótimo —, mas depois o “ecoamento” (sic), o fato de levar esse filme para mais gente, não tem tanto investimento em contrapartida ao que se investe na produção. Então fica essa diferença: muita oferta de títulos de curtas, médios e longas e nem tantas ofertas para exibir esses filmes presencialmente. Na internet, qualquer um pode colocar um filme no YouTube, mas você fica naquela questão: ninguém vai chegar no seu filme porque demanda um esforço de divulgação grande. Ou seja, não adianta só colocar para exibir na internet. É uma coisa mais complexa: você pode colocar, mas a audiência é mais restrita, pequena, porque não consegue furar a bolha, já que são milhões de conteúdos colocados diariamente no mundo todo. Por isso a importância das exibições presenciais, seja no cinema comercial ou nos cineclubes, que têm um formato mais cultural. Inclusive, voltou a ter um interesse do público neste formato de exibição mais cultural do cinema. Virou um espaço de resistência cultural.
Sarau de Grã Finos: O Curta o Curta antecipou o modelo de streaming no Brasil quando a própria internet ainda dava seus primeiros passos por aqui. Vinte e seis anos depois, em um mundo saturado por telas e algoritmos, qual é o significado simbólico e prático de trazer o projeto de volta para a experiência presencial do cinema e o debate de calçada?
Guilherme Whitaker: Além do Curta o Curta, que é o site, eu também faço desde 2002 a maior mostra de cinema independente do Brasil, que acontece há 24 anos no CCBB-RJ. Este ano, vamos abrir as inscrições em setembro para receber os diferentes formatos de filmes. Chegamos a receber mais de 1.000 filmes. Então, nós estamos acompanhando a evolução brasileira de curtas, médias e longas ao longo dos anos; são filmes que fogem da estética e da proposta comercial. São, na maioria das vezes, filmes feitos por conta própria, em família, entre amigos, por pequenas empresas. É um perfil que se assemelha muito ao dos curtas-metragens, que têm esse perfil de fazer o filme com menos grana e mais garra.


Sarau de Grã Finos: Lá atrás, o site democratizou o acesso ao curta-metragem que raramente encontrava espaço na TV ou no cinema comercial. Hoje, ao ocupar o CCJF com entrada franca e promover o encontro na Banca do André, de que maneira o cineclube busca manter essa vocação inclusiva e aproximar o público da reflexão crítica?
Guilherme Whitaker: De fato o Cineclube, no caso, o longa-metragem ele sempre teve uma dificuldade grande de chegar a um público maior. E a questão de você ter uma quantidade sempre maior de conteúdo para todos os públicos possíveis. Então, é uma coisa muito volumosa. Então, você faz uma busca por determinado assunto, e os vídeos que vão aparecer, são os mais vistos ou os que pagaram pela publicidade. Por isso, o papel do Cineclube é importante porque faz esse filtro, com os temas que consiga ter um fio e depois você vai debater com a plateia aquele filme que foi exibido ali. Não é só ir a sessão e depois ir embora para casa, o "Cineclubismo" ele vai numa contracorrente não individualista de apenas você cuidar de si e não estar preocupado com nada mais. É a oportunidade de levar para o coletivo questões que podem interessar a todos ali. E também trocar ideias sobre o conteúdo, às estéticas dos filmes, dos temas, da difusão desses filmes. Acho que esse formato é algo mais lúdico de aproximar pessoas, sem talvez, ser um contato de trabalho. Tem algo de enaltecer a cultura. Hoje está tudo muito over, nessa questão do egoísmo. Então é uma forma de voltar a outro tempo, se aproximar, fazer algo em prol. Eu moro em Lumiar, distrito de Nova Friburgo, e aqui temos o Cineclube mais antigo do Brasil já há 18 anos. São 5 mil pessoas, mas proporcionalmente você acaba atingindo um público específico. Isso é maravilhoso porque você sente que está fazendo algo em prol.
Sarau de Grã Finos: Com a aceleração do consumo de vídeos nas redes sociais, o conceito de 'conteúdo curto' mudou drasticamente. Diante desse cenário, por que o curta-metragem cinematográfico continua sendo a principal ferramenta de resistência cultural e porta de entrada para novos talentos?
Guilherme Whitaker: De fato, o Cineclube... No caso, o curta-metragem e o longa-metragem sempre tiveram uma dificuldade grande de chegar a um público maior, devido à questão de você ter uma quantidade sempre maior de conteúdo para todos os públicos possíveis. Então, é uma coisa muito volumosa: você faz uma busca por determinado assunto, e os vídeos que vão aparecer são os mais vistos ou os que pagaram pela publicidade. Por isso, o papel do Cineclube é importante, porque faz esse filtro com temas que consigam ter um fio condutor, e depois você vai debater com a plateia aquele filme que foi exibido ali. Não é só ir à sessão e depois ir embora para casa; o “cineclubismo” vai em uma contracorrente não individualista de apenas você cuidar de si e não estar preocupado com nada mais. É a oportunidade de levar para o coletivo questões que podem interessar a todos ali, e também trocar ideias sobre o conteúdo, as estéticas, os temas e a difusão desses filmes. Acho que esse formato é algo mais lúdico para aproximar pessoas sem, talvez, ser um contato de trabalho. Tem algo de enaltecer a cultura. Hoje está tudo muito over nessa questão do egoísmo, então, é uma forma de voltar a outro tempo, se aproximar, fazer algo em prol. Eu moro em Lumiar, distrito de Nova Friburgo, e aqui temos o Cineclube em atividade contínua mais antigo do Brasil, já há 18 anos. São 5 mil habitantes, mas, proporcionalmente, você acaba atingindo um público específico. Isso é maravilhoso, porque você sente que está fazendo algo em prol da sétima arte.


Sarau de Grã Finos: Olhando para a trajetória do Curta o Curta — do portal pioneiro às parcerias atuais com a RioFilme e a Lei Aldir Blanc —, destaque o maior legado do projeto para a memória e o futuro do cinema brasileiro?
Guilherme Whitaker: Nos anos 2000, havia aquele papo de que era caro fazer cinema. Você não tinha muitas oportunidades de fazer vídeos, porque depois ainda tinha a projeção, que era cara, e não havia lugar para passar, com raras exceções. Nessa época, eu já tinha 30 anos em 2000 e já estava sacando e vendo que era muito difícil. Então, pensei: vamos criar uma nova janela para facilitar que esses filmes em vídeo cheguem a mais gente. Em 2002, eu criei a mostra de cinema independente que é feita no CCBB. Foi um casamento perfeito, ao qual tenho me dedicado nos últimos 20 anos — quase que exclusivamente a esses projetos, ambos de difusão. O Curta o Curta já não é tão importante para a difusão porque hoje temos o YouTube, e ele é pequeno em relação a outros. Mas é resistência cultural também, ele tem um diferencial que acho que daqui a mil anos vai fazer a diferença, que é: o Jornal do Curta, que está com mais de 4 mil notícias publicadas desde o início do projeto. Esse apanhado de notícias não existe em nenhum outro lugar sobre o universo do audiovisual brasileiro. Então, esse legado de registro é algo que estamos construindo para este tempo. E o site foi feito por mim, que trabalho quase que totalmente sozinho, então criei esse espaço como alguém que quer fazer e deixar algo para as próximas gerações verem como o cinema brasileiro está se difundindo. Portanto, o Curta o Curta é um projeto que nasceu de um sonho, sendo realizado e resistindo. Não tínhamos patrocínio. O que tínhamos era algo que não existia: uma vontade de fazer algo para dar visibilidade aos curtas, no sentido de exibição e notícias. Agora, graças ao patrocínio da RioFilme, estamos conseguindo fazer essa difusão com melhor estrutura. São 26 anos neste trabalho de difundir o cinema brasileiro. O legado tem muito essa visão: uma boa ideia sendo bem trabalhada pode dar frutos eternos, como está dando a longo prazo. E o Jornal do Curta é inédito no Brasil e segue sendo uma referência neste segmento.