Entre tambores e silêncios: A inovação de “Káminhos Benaguiá” ao traduzir a biofonia da Amazônia em texturas cinematográficas e arranjos globais.
A jornada artesanal de Bernardo Aguiar e seus convidados para transformar a percussão no centro de um ecossistema audiovisual vibrante, onde o som e a imagem nascem juntos para evocar os mistérios invisíveis da floresta.
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5/29/20268 min read


Fotos: divulgação
O álbum “Kaminhos Benaguiá” é um convite a uma viagem sensorial que envolve todos os sentidos. Nessa epopeia musical é possível fechar os olhos e escutar o verde denso da Amazônia ou o peso histórico das pedras coloniais do Morro da Glória, no Rio de Janeiro. Agora, abra-os e tente enxergar o estalar de um pandeiro, o atrito da madeira, onde a cada faixa um instrumento ganha notoriedade para embalar as imagens minuciosamente pensadas para esse álbum que coloca a percussão, não como base musical, mas como anfitrião do som. Essa é trilha criada pelo percussionista, produtor e diretor Bernardo Aguiar, que tem mais de 30 anos de trajetória musical, e explora a brasilidade sonora, que ele adquiriu quando ainda era percussionista de Escola de Samba. Em seu primeiro álbum solo, Káminhos Benaguiá, recém-lançado em formato de álbum visual no YouTube e nas plataformas de streaming, o som não serve apenas de trilha para as imagens, e o vídeo não ilustra somente a música: ambos nascem de um mesmo parto sensorial, transformando a percussão na voz condutora de uma experiência profundamente cinematográfica.
“Em Káminhos Benaguiá, som e imagem foram concebidos juntos, desde a origem da criação. Me provoquei a deixar uma coisa se fundir na outra até tudo virar uma coisa só. Eu sabia que era isso que precisava fazer, mas ainda não sabia exatamente como aquilo aconteceria, então só fui… E cada trecho de música era um desafio diferente. Muitas vezes cheguei ao resultado que queria na persistência mesmo, num processo totalmente artesanal. Acho que, antes de tudo, tenho a sorte de ser percussionista, ou seja, de trabalhar com uma variedade absurda de instrumentos e timbres. Esses instrumentos possuem formatos, materiais e superfícies muito diferentes entre si, visualmente falando. E os sons que produzem também carregam cores e texturas muito distintas. Então os próprios instrumentos percussivos já funcionavam como elementos naturais de junção entre som e imagem, - relata o músico acrescentando toda a sensibilidade para edição e junção do material sonoro - teve momentos em que uma textura visual alterou completamente o caminho sonoro de uma faixa. Às vezes eu percebia que determinada imagem pedia mais espaço, mais silêncio, outra densidade sonora, outro tipo de timbre. O que eu buscava não era exatamente uma lógica de “agora vou musicar isso”, nem de “agora vou ilustrar esse som”. Claro que às vezes isso até acontecia, mas o mais importante era deixar som e imagem contaminarem um ao outro o tempo inteiro. E assim tudo virou um grande processo único, que eu ia descobrindo ali, intuitivamente”.


A expansão do horizonte percussivo de Bernardo Aguiar já vinha sendo desenhada em projetos anteriores, como o "Pandeiro Repique Duo", através do conceito de "melodia do ritmo". Com o “Pandeiro Repique Duo", surgiu a virada de chave para “tirar” o pandeiro e o repique do papel tradicional de meros "acompanhantes" no fundo do palco para a linha de frente, através de técnicas avançadas de abafamento, extração de timbres graves, médios e agudos, e modulação de tons nas peles dos instrumentos. O projeto virou referência internacional de percussão, circulando intensamente pela Europa, África, Américas e Ásia. Para Bernardo o resultado sonoro de “Káminhos Benaguiá” é uma revolução heráldica, que iniciou-se no “Pandeiro Repique Duo”.
“Ao longo dos anos, fui expandindo cada vez mais a maneira como enxergo o universo percussivo. Em projetos como o Pandeiro Repique Duo, por exemplo, fui aprofundando esse conceito de “melodia do ritmo”, que é trazer pra linha de frente sons percussivos que normalmente ficam escondidos na função de acompanhamento. E a percussão é isso sim, mas não é só isso. Já há bastante tempo vivencio ela também como linguagem melódica, textural, atmosférica, como um discurso musical completo. Gosto muito de pensar a atividade musical como criação de mundos sonoros. E nisso a percussão virou também um espaço de fusão entre ambiências, timbres, ruídos, respirações, silêncios e densidades sonoras. Acho que em Káminhos Benaguiá, todas essas camadas acabam se encontrando. Talvez a novidade desse trabalho seja justamente adicionar mais uma dimensão: a percussão como elemento narrativo audiovisual. Ela não apenas conduz o ritmo, mas também conduz atmosferas, tensões, movimentos e imagens. Então sinto que essa dimensão cinematográfica realmente acontece. Pelo menos é assim que sinto quando mergulho nesse universo” - analisou Bernardo.


O cenário musical hoje é dominado pela efemeridade dos algoritmos, pela homogeneização dos formatos de streaming e pela pressão mercadológica por “singles” ultraprocessados de consumo rápido - o que também é uma critica presente no processo criativo de Bernado Aguiar - que ao furar a bolha, mostra no álbum Káminhos Benaguiá, o papel do músico de real qualidade que transcende a mera execução técnica revelando a profundidade artística. Inovar hoje não significa apenas adotar novas tecnologias, mas ter a coragem de subverter a lógica comercial vigente e criar experiências sensoriais que exijam a atenção e o afeto do ouvinte. É precisamente esse poder de inovação e autenticidade conceitual que permite a esse projeto mostrar um novo nicho instrumental, como acontece de forma brilhante neste álbum visual Káminhos Benaguiá, de Bernardo Aguiar.
“O neoliberalismo já vem varrendo há muito tempo e, em várias áreas, os profissionais têm que ocupar muitas funções para conseguir viabilizar o próprio trabalho. Na música isso também acontece. No meu caso, fui adentrando o universo da imagem de maneira muito natural e intuitiva. Há um bom tempo eu entendi que editar vídeo seria uma coisa que me ajudaria na minha vida de músico. Pra você ver, lá em 2009, quando o Pandeiro Repique Duo ainda estava sendo criado, a gente precisou de um vídeo release para apresentar a ideia a produtores dinamarqueses que estavam interessados no trabalho. Na ocasião, pensei intuitivamente: “tenho que editar um vídeo”. E foi assim. Meti a mão na massa, apresentei um trabalho que ainda não existia, e graças àquela edição a ideia do projeto conseguiu ser transmitida. Às vezes, não queria estar fazendo, queria estar só tocando, outras vezes, sinto muito prazer em fazer, até porque envolve ritmo, sentidos, sensações, coisas que me instigam. Acho que foi nas minhas vivências na Amazônia que comecei a olhar pra imagem de outro jeito. Não mais como algo apenas funcional ou ilustrativo, mas como linguagem criativa mesmo (...) Então acho que aí já dá pra perceber como as coisas começaram a se misturar de vez: música, imagem, território, história, atmosfera, sentidos… A edição de vídeo, por exemplo, passou a funcionar pra mim quase como continuação da produção musical. Ritmo, dinâmica, silêncio, tensão, respiro… tudo isso existe também na montagem. O primeiro REC de Káminhos Benaguiá nasceu nesse contexto, em 2020, mas o álbum só começou a ser realmente desenvolvido de forma mais profunda em 2023” - revelou o exímio músico.


A beleza sutil no trabalho do músico Bernardo Aguiar, que reuniu desde o choro de Silvério Pontes ao som global de integrantes do Snarky Puppy (Michael League e Chris Bullock) podemos chamar de um mapa de afetos, no qual, Bernardo Aguiar não convidou músicos para simplesmente tocarem em suas faixas, mas para habitarem biomas sonoros vivos e rigorosamente desenhados. O processo, embora tecnicamente solitário, segundo o experiente músico, desabrochou em uma simbiose poética onde a ancestralidade da música brasileira abraça o som global. Alli, cada colaborador foi convocado para fundir sua identidade humana à própria pulsação da natureza que amarra o projeto numa fusão de imagens e sons. Um convite para entrar na "doidera" mística de um ecossistema audiovisual onde o sopro, a corda e o tambor mimetizam o rugido de uma onça-pintada, a densidade orgânica da Amazônia e os mistérios invisíveis que nos cercam, garantindo que o álbum transborde em texturas vivas e universais sem jamais perder sua unidade estética fundamental: A poesia musical.
“Foi um processo muito íntimo e solitário. E justamente por ser assim é muito valioso convidar músicos incríveis para visitar esse mundo em construção tão pessoal e original. É tipo: “tô fazendo essa maluquice aqui… quer entrar na doidera?”. Claro que um convite desses a gente só faz pra pessoas em quem confia muito. E justamente por ser um projeto totalmente independente, a ideia sempre foi deixar todo mundo o mais confortável possível para chegar e gravar áudio e imagem de maneira leve e natural. Só consigo fazer isso com pessoas com quem existe confiança artística e humana. Então, partindo de músicos e musicistas que admiro e em quem confio, eu também só chamei quem chamei porque existia uma afinidade muito específica entre a linguagem daquela pessoa e o microcosmo de determinada faixa. Nunca pensei nos convidados como “participações especiais” no sentido tradicional. Cada artista foi chamado porque existia uma conexão muito específica entre a linguagem daquela pessoa e a narrativa daquela faixa. E o bonito é que são artistas muito diferentes entre si, vindos de contextos culturais distintos, mas todos entrando nesse universo a serviço da música e da narrativa do projeto. Cada um trazendo sua bagagem musical, humana e artística. Tem uma galera brasileiríssima da melhor qualidade e também pessoas estrangeiras, com outras vivências e outras escutas. Acho que isso dialoga muito com a maneira como vejo a música brasileira: profundamente brasileira, mas aberta ao mundo, capaz de absorver diferentes influências sem perder identidade. Foi muito especial receber também essa abertura do pessoal do Snarky Puppy pra construir isso junto. Eu já tinha colaborado em alguns projetos deles e agora foi muito bonito receber essas contribuições no meu próprio trabalho. Acho que isso ajuda o álbum a reforçar esse eixo universal que atravessa Káminhos Benaguiá” - relembrou orgulhoso, o músico Bernardo Aguiar.
No álbum participaram: Yuri Villar, Will Magalhães, Aline Paes, Carlos Malta, Guto Wirtti, Maria Clara Valle, Gabriel Guinther, Rodrigo Ferrera, Silvério Pontes, Antonio Neves, Floor Polder, Chris Bullock, Michael League e Alexandre Rabaço na masterização. Na parte visual: Miguel Carvalho, Marina Luar, Orla Kilesse, Micael Hocherman, Daniel Lôbo, Gustavo Cassano e João Rudge. Bernardo Aguiar assina a concepção, direção musical e visual, composição, produção musical, percussão, mixagem e edição. “ E também a responsabilidade de fazer tudo isso acontecer lindamente! Acho que consegui, e celebro isso com vocês”.- afirmou reiterando o convite- “As faixas estão em todas as plataformas, mas pra assistir da melhor maneira, recomendo no meu canal do YouTube, porque é lá que dá pra escutar, ver e sentir tudo junto. A playlist Káminhos Benaguiá já está disponível. Dá uma desligada do mundo e aperta o play!”