"Existem muitas Butterfly`s"
A mulher que hoje opta por manter o namoro "off" e a individualidade "on" está, na verdade, reagindo a séculos de narrativas culturais, das quais a ópera é um exemplo clássico, que forçaram a mulher a ver o amor romântico como sua única ou principal fonte de valor.
CRÔNICAS
Joana Aleixo é jornalista, produtora cultural, estudante de música e história da arte.
11/27/20255 min read


Fotos: Daniel Ebendiger
A obra operística Madama Butterfly que está em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nos leva a lugares bastante incômodos e reflexivos. A Ópera que nesta versão é ambientada no Japão dos anos 50, em um cenário de pós-guerra, revela as fragilidades e consequências devastadoras da Segunda Guerra Mundial. No entanto, é sem dúvidas a personagem Cio-Cio-San que nos captura sobre o papel central da mulher nas mais diversas culturas e épocas. Na trama, assim como o original de Puccini em 1904, a jovem gueixa se casa com o oficial naval americano B. F. Pinkerton. Ela na delicadeza dos seus 15 anos e o oficial da Marinha apenas desejando um “brinquedo”, a toma como esposa. Aquela situação é a oportunidade para que Cio-Cio-San, que outrora era de família tradicional, retome seu posto na sociedade. Vale ressaltar que ser gueixa não se trata de ser uma prostituta e, sim, uma artista e profissional altamente treinada, dedicada a preservar as artes e tradições japonesas.
É nessa epítome da vida de Cio-Cio-San que desejo me debruçar. Ela foi sem dúvidas a primeira mulher que tivemos notícia a ser vítima de uma palavra muito contemporânea: o “Ghosting”. Após se casar com Pinkerton, ele se ausenta do Japão, retornando aos EUA, onde se casa com uma americana. Cio-Cio-San aguarda o retorno dele por três anos, já então com um filho, na qual, ele não sabia existir. Ao voltar ao Japão, desta vez, acompanhado da esposa americana, para buscar o filho, ele não encara a esposa japonesa, sendo a mulher americana a dar a notícia do casamento e avisar que levará o filho deles para a América. Tomada de amor e vergonha depois de uma espera de recusas e fidelidade ao homem que a trairá tão brutalmente, ela não vê opção a não ser tirar a própria vida. Podemos vivenciar isso de várias maneiras nos dias atuais quando o relacionamento se torna, literalmente, o todo, o centro e o fim, da existência de uma mulher.


Aqui vamos afirmar veementemente que existem e existiram muitas Butterfly mundo afora. Um artigo na Vogue Britânica, neste mês de novembro intitulado; “Ter um relacionamento é embaraçoso hoje em dia?” aborda a tendência da Geração Z de manter relacionamentos "off", privados, em um movimento de proteção da individualidade e repúdio à ideia de que a identidade feminina deva ser definida pelo status de relacionamento. O receio central é a autossupressão ou a vergonha causada por parceiros masculinos pouco confiáveis ou misóginos. Principalmente, a matéria expõem o medo da mulher contemporânea ao colocar o relacionamentos nas redes sociais e de repente serem surpreendidas com um término, deixando a mulher exposta com um relacionamento que não deu certo. O contraponto ao drama da personagem Cio-Cio-San na ópera Madama Butterfly de Giacomo Puccini, se faz presente nos dias atuais e é muito poderoso, pois, representa o extremo trágico da abnegação em nome do amor romântico que as jovens da atualidade buscam desesperadamente evitar.
Cio-Cio-San personifica a versão mais radical da crença no amor romântico idealizado, uma fé inabalável que exige o sacrifício de toda a identidade dela. Ela abandona a fé, a família e secretamente se converte ao cristianismo, renunciando ao xintoísmo para se adequar ao mundo de Pinkerton. Isso a leva a ser renegada por sua família e comunidade. A substituição da própria identidade se apegando ferrenhamente ao nome "Sra. Pinkerton", considerando-o sua única e verdadeira identidade, inviabilizando todas as oportunidades de refazer a vida após o abandono do marido. Sua personalidade e futuro se tornam submissos à promessa de casamento. Cio-Cio-San representa o passado temido — a mulher que, ao "casar ou noivar", como descrito no artigo, deixa de lado seus gostos e hobbies e transforma sua vida em apenas "ser dona de casa" ou "ser esposa de". isso em qualquer época tem levado muitas mulheres a tragédias pessoais onde essa abdicação é a causa da ruína feminina.


Ao decidirem manter seus relacionamentos em segredo, sem um “storytelling” nas redes sociais com os melhores momentos das suas histórias românticas, por medo de inveja ou do relacionamento não ser durável e ter, após um possível término que encarar o julgamento da sociedade, as mulheres da nova geração também enfrentam um medo que nos assombra, o drama do "coração partido. Para Cio-Cio-San, a revelação final não é apenas um desgosto, mas sim a vergonha definitiva e o aniquilamento total de seu status social. Ela não foi apenas enganada; ela se tornou uma pária social que entregou a vida a uma fantasia que a sociedade e o parceiro nunca reconheceram como real. Sua única saída honrosa, segundo seus valores, é o suicídio.
A mulher que hoje opta por manter o namoro "off" e a individualidade "on" está, na verdade, reagindo a séculos de narrativas culturais, das quais a ópera é um exemplo clássico, que forçaram a mulher a ver o amor romântico como sua única ou principal fonte de valor. A tragédia de Cio-Cio-San serve como o lembrete sombrio de que fazer do relacionamento o todo da vida é uma aposta arriscada que, historicamente, custou às mulheres muito mais do que apenas a liberdade nas redes sociais — custou-lhes a própria vida e dignidade.


Como uma romântica incorrigível e ciente que o amor é o que nos torna humanos mais ainda nos mantém vivos, deixo nessas últimas linhas uma reflexão shakespeariana sobre a defesa eterna do amor romântico. O verdadeiro amor não é volátil nem sujeito às circunstâncias, mas sim uma bússola constante e inabalável em um mundo de mudanças.
"O amor não é amor que se altera quando encontra alteração ou se afasta ao ver o que se afasta. Ah, não! É um farol sempre fixo que olha as tempestades e nunca é abalado. É a estrela para cada barco errante, cujo valor se desconhece, embora se meça a altura. O amor não é bobo do tempo, embora os lábios e faces rosadas caiam sob a foice curva do tempo; o amor não se altera com as breves horas e semanas, mas suporta até a beira da perdição. Se isto for erro e sobre mim provado, eu nunca escrevi, nem ninguém jamais amou." - Soneto 116 de William Shakespeare.