Mestres da Identidade: Música Brasileira em Foco Celebra o Legado de Guerra-Peixe e os 120 Anos de Radamés Gnattali

O Theatro Municipal do Rio resgata poemas sinfônicos e concertinos do século XX, transformando o palco em um autêntico manifesto da alma brasileira

CONCERTOGRÃFINÍSSIMO

6/11/20263 min read

Arte Carla Marins


O Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta a série Música Brasileira em Foco com uma homenagem aos “Mestres Brasileiros”: Radamés Gnattali - comemoração aos 120 anos de nascimento, e César Guerra-Peixes - pelo rigor técnico e paixão pela cultura popular. Sob a regência do maestro titular Felipe Prazeres e com a participação da Orquestra Sinfônica do TMRJ, o evento — agendado para o dia 17 de junho, às 19h — atua como um manifesto de valorização da música de concerto nacional. O programa funciona como um inventário histórico e analítico de peças que traduzem a identidade, a geografia e o folclore do Brasil para a sofisticação da linguagem orquestral, estabelecendo um diálogo direto entre a erudição técnica e as manifestações populares. Com Patrocínio Oficial Petrobras, a primeira parte do programa é dedicada a Guerra-Peixe e inclui Museu da Inconfidência e o Concertino para Violino e Orquestra de Câmara, interpretado pelo violinista Ricardo Amado.

A primeira metade do programa lança luz sobre a fase nacionalista de César Guerra-Peixe, período em que o compositor fluminense abandonou o rigor abstrato do dodecafonismo para mergulhar nas raízes culturais do país. A transição é magistralmente ilustrada pelo poema sinfônico Museu da Inconfidência, estruturado em quatro movimentos. A peça nasce do impacto sinestésico e emocional sofrido pelo autor diante do acervo histórico em Ouro Preto, resultando em uma obra que marca o retorno consciente à linguagem tonal. Por meio de texturas orquestrais que evocam o passado colonial e a insurgência mineira, Guerra-Peixe transforma a memória material da Inconfidência em matéria sonora, costurando drama e identidade coletiva.

"Não faço música folclórica: faço música minha, enriquecida com a experiência que tenho do folclore." — declaração para a imprensa por volta de 1950 que marca a maturidade do compositor César Guerra-Peixe.

Foto: Daniel Ebendinger

A segunda parte do concerto celebra os 120 anos de nascimento de Radamés Gnattali, um dos compositores mais importantes da música brasileira. Nascido no Rio Grande do Sul e oriundo de uma família de músicos, o Concertino para Violino e Orquestra de Câmara — que terá o violinista Ricardo Amado como solista — revela o desdobramento das pesquisas de campo no Nordeste. Originalmente dedicada ao violinista Cussy de Almeida e à Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco, a obra respeita a arquitetura formal dos três movimentos tradicionais, mas subverte a sonoridade convencional do concerto europeu. Ao transferir para o violino o sotaque, a crueza e a expressividade melódica da rabeca e da viola caipira, a peça sintetiza o ideal armorial de transmutar o folclore urbano e sertanejo em alta cultura, sem desidratar a força de sua origem tipicamente brasileira.

O ponto alto dessa fusão musical é a Brasiliana nº 1, composta em 1944. Sendo a peça inaugural de uma série que se tornaria a espinha dorsal de sua produção, a obra orquestral articula com naturalidade temas infantis tradicionais e células rítmicas do Nordeste. A relevância histórica da composição é referendada por sua rápida internacionalização na década de 1940, período em que foi executada pela Orquestra da BBC de Londres e acolhida no repertório de prestigiadas sinfônicas norte-americanas, como as de Chicago e Filadélfia. Através desse panorama, o concerto do Theatro Municipal não apenas homenageia dois mestres do século XX, mas reafirma a atualidade e a soberania da identidade musical brasileira.

“Este programa reúne dois nomes ligados ao Rio de Janeiro e fundamentais para a música brasileira do século XX. Em um ano que comemoranos os 120 anos de nascimento de Radamés Gnattali, celebramos sua contribuição singular para a construção de uma linguagem musical autenticamente brasileira. Ao lado de César Guerra-Peixe, sua obra dialoga com a história e com a diversidade cultural do país, oferecendo ao público um panorama rico e vibrante da música brasileira de concerto”, destaca Felipe Prazeres, Maestro Titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

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Joana Aleixo

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jornalista/produtora cultural

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