"Mozart está no meu DNA": Maestro Felipe Prazeres abre temporada com a Grande Missa em Dó Menor.
No comando da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio, o maestro transforma a Missa em Dó Menor em um manifesto de paz e otimismo para 2026.
CONCERTOGRÃFINÍSSIMO
3/12/20266 min read


Foto: Renato Mangolin
O ano de 2026 se inicia com tensões eminentes que trazem incertezas para a população mundial. Neste cenário, a música de Wolfgang Amadeus Mozart que completou 270 anos do seu nascimento em janeiro faz uma “ponte simbólica” entre a celebração do nascimento dele e as homenagens ao Mês da Mulher, que nos presenteia como um ritual de passagem e purificação para esse emblemático ano. Sob a regência de Felipe Prazeres, a temporada do Municipal do Rio 2026 começa com a imponente Missa em Dó Menor, uma escolha que, segundo o maestro, "expurga energias negativas". Entre a celebração do talento feminino, personificado nas solistas Carolina Morel e Michelle Menezes e nas mulheres que viabilizaram a genialidade de Mozart, a Grande Missa em Dó Menor (K. 427) é frequentemente descrita como o "testamento sagrado" de Mozart. Composta entre 1782 e 1783, ela ocupa um lugar singular em sua obra: é uma composição monumental que, curiosamente, nunca foi terminada.
Para o Maestro Felipe Prazeres, reger a Grande Missa em Dó Menor de Mozart na abertura da temporada não é apenas um compromisso profissional, mas um reencontro com a própria infância. Criado sob a batuta do pai, o saudoso Maestro Armando Prazeres, Felipe traz uma obra que define seu "DNA musical". Nesta interpretação, que une o rigor técnico à memória afetiva, o regente busca transformar o palco em um refúgio de paz, oferecendo ao público uma versão íntima e vibrante para enfrentar os tempos de incertezas. Prazeres utiliza ainda sua profunda intimidade com o repertório clássico para conduzir a orquestra e o coro em uma performance de forte apelo espiritual. O concerto marca não apenas o início do calendário artístico, mas uma homenagem às raízes do maestro e ao papel fundamental das mulheres na história da música erudita.


Fotos: Filipe Aguiar
Entrevista exclusiva com o maestro Felipe Prazeres para o Sarau de Grã Finos
Sarau de Grã Finos: A Grande Missa em Dó Menor abre com um Kyrie que é um grito profundo por misericórdia. Diante do cenário de conflitos globais que iniciamos 2026, como o srº pretende utilizar a massa sonora do Coro e da Orquestra do TMRJ para que esse pedido de paz não seja apenas uma repetição litúrgica, mas uma reflexão artística sobre a urgência da diplomacia e da humanidade no mundo contemporâneo?
Maestro Felipe Prazeres: Acho que essa efeméride de Mozart abrindo a temporada do Theatro Municipal com a Missa em Dó Menor, não veio em inoportuno. A arte, a música em especial está sempre em proximidade com que está acontecendo na vida das pessoas e no mundo. E a gente têm acompanhado várias mudanças no dia-a-dia e conflitos cada vez mais intensos e próximos de nós. Acredito que essa abertura de temporada com esse clamor por paz veio a calhar e desejo que a música de Mozart expurgue qualquer energia negativa que paira, ali para quem estará assistindo, mas principalmente a vibração que essa música naturalmente emana. Então, sim, essa “massa sonora” do Coro do Theatro Municipal juntamente com a Orquestra Sinfônica nessa abertura têm um pedido: uma misericórdia, um pedido de paz nesse momento tão conflitante.
Sarau de Grã Finos: Historicamente Mozart escreveu as partes de soprano para Constanze como uma prova de amor e um desafio técnico às suas capacidades. O srº sempre exalta a presença e o talento feminino em seus projetos e em sua vida social. Como pretende 'mimar' as solistas Carolina Morel e Michelle Menezes na condução da orquestra para que elas brilhem com o mesmo frescor e encanto que Mozart dedicou à sua própria amada?
Maestro Felipe Prazeres: Essa abertura costuma ocorrer próxima ao Dia Internacional da Mulher. Embora o reconhecimento deva ser diário, as atenções se voltam ainda mais para o tema nesta época, o que às vezes me coloca em uma "saia justa". No ano passado, por exemplo, homenageamos Johann Strauss Jr. — um maestro homem, com uma orquestra majoritariamente masculina. É importante frisar esse déficit existente e buscar na história inspirações que surgiram graças às mulheres.
Johann Strauss Jr. tornou-se o mais importante compositor de valsas porque sua mãe o permitiu estudar; seu pai, Johann Strauss I, também compositor, não queria que o filho fosse músico. Graças a ela, ele estudou escondido e tornou-se uma figura fundamental para a música mundial. No caso de Mozart, tivemos Constanze, uma exímia cantora que certamente o inspirou em suas composições.
Eu já pensava nesta Missa há algum tempo, idealizando-a com as solistas do Municipal que me acompanham desde que entrei, em 2022: Carolina Faria e Michele Menezes. São dois talentos que tento "mimar" bastante. Curiosamente, Mozart não define na partitura qual solo cabe a cada uma; ele indica apenas "Soprano 1" e "Soprano 2", deixando a escolha ao intérprete. Elas decidiram entre si, a Carolina como Soprano 1 e a Michele como Soprano 2, o que será uma belíssima surpresa para o público.


Sarau de Grã Finos: A Missa em Dó Menor é o momento em que Mozart 'mergulha' no passado para inventar o futuro, utilizando fugas complexas que aprendeu por meio de Bach. Como músico com forte formação camerística e barroca, o público pode esperar uma leitura mais detalhista e transparente nessas passagens densas do Coro, ou optará pela sonoridade 'grandiosa e romântica' que o palco do Municipal tradicionalmente oferece?
Maestro Felipe Prazeres: Sobre a interpretação, precisamos nos adaptar às condições que temos. Gosto muito de seguir a estética da época, mas como tenho em mãos um coro de ópera (lírico e numeroso), faremos uma versão híbrida. Teremos momentos de leveza e outros de maior densidade, especialmente nos corais. Essa Missa é magnífica tanto em uma leitura de época quanto em uma abordagem mais romântica.
Sarau de Grã Finos: Mozart compôs esta peça por um voto pessoal, sem encomenda, o que a torna uma das suas obras mais íntimas e honestas. Como essa 'liberdade criativa' de Mozart será traduzida pela regência?
Maestro Felipe Prazeres: Essa Missa em Dó Menor faz parte da minha vida desde a infância. Meu pai, o maestro Armando Prazeres, regeu muito essa obra, então ela está no meu DNA de tanto que a escutei; a gente acaba se tornando íntimo dela. Essa proximidade se estende não só à obra, mas ao próprio compositor, pois tenho grande afinidade com o repertório que vai do Barroco a Mozart, chegando até Beethoven.
Mozart é um compositor que sempre tive muita vontade de interpretar e realizar, o que me deixa muito à vontade diante da orquestra. Por isso, esta será uma versão íntima da minha parte, refletindo essa relação que cultivo com a música desde criança. É importante destacar que Mozart compôs essa missa sem que houvesse uma encomenda; não havia esse viés comercial ou externo. Minha intenção é interpretá-la dessa forma: como uma música genuinamente íntima, tanto como foi para ele, quanto como é para mim e, certamente, será para os músicos que a executarão.
Sarau de Grã Finos: A obra termina sem o Agnus Dei original. Como o srº, pretende encerrar esta récita de abertura de temporada? Daria um spoiler sobre a possibilidade de fechamento com o brilho do Benedictus ou buscará uma solução cíclica, retornando ao tema do Kyrie, para reforçar a unidade da peça?
Maestro Felipe Prazeres: Vale lembrar que Mozart compôs esta Missa sem que houvesse uma encomenda formal. Por isso, busco uma interpretação igualmente íntima, refletindo o que ela significou para ele e o que significa para mim e para os músicos. Executaremos a versão padrão, encerrando no Benedictus que emenda com o coro anterior, trazendo uma visão mais otimista. É a versão mais consagrada pelos grandes editores e intérpretes mundiais.
Terminamos, assim, com uma nota de otimismo para contrapor o mundo sombrio que nos cerca. Que essa música traga boas energias para 2026 e para os anos que virão.