Museu Nacional UFRJ Faz das Cinzas a sua Poesia com Arte que Resiste

Das cinzas de Vik Muniz à madeira resgatada por Davi Lopes, a arte ocupa o berço do incêndio de 2018 para lembrar que o Museu Nacional permanece vivo e moldando o seu próprio futuro.

EXPOSIÇÕESGRÃFINÍSSIMO

7/10/20264 min read

Foto: Divulgação

Quase oito anos após o trágico incêndio que destruiu o Palácio de São Cristóvão em 2018, as próprias cinzas e resíduos da destruição retornam à instituição transformados em patrimônio artístico e instrumentos de resiliência. Até 30 de agosto, o Museu Nacional/UFRJ e o Projeto Museu Nacional Vive reabrem parcialmente as portas do edifício em reconstrução com duas exposições gratuitas e inéditas. O grande destaque é a mostra individual “Rescaldo das Memórias”, do renomado artista Vik Muniz, instalada justamente na Sala das Vigas Retorcidas — local onde o fogo começou. A exposição reúne 11 fotografias e nove esculturas tridimensionais revestidas com os fragmentos e cinzas recolhidos dos escombros, recriando peças emblemáticas do acervo perdido, como o crânio de Luzia e artefatos egípcios, em uma profunda reflexão sobre memória, perda e renascimento.

A força da transformação material também se faz presente na exposição coletiva “Bastidores da Ciência”, que divide as seis salas históricas do palácio com a mostra de Vik Muniz até 30 de agosto. Entre os destaques dessa segunda vertente estão os instrumentos musicais produzidos pelo luthier Davi Lopes, confeccionados a partir de madeiras resgatadas do próprio incêndio, simbolizando o lema de renovação que move a reconstrução. Unindo arte, ciência e inovação tecnológica — evidenciada no trabalho de modelagem digital e impressão 3D do laboratório LAPID/UFRJ —, as mostras celebram as profissões de bastidores dos museus e reafirmam a capacidade de reinvenção coletiva da instituição. Os ingressos para as exibições são gratuitos e disponibilizados semanalmente através da plataforma Sympla.

Transformando tragédia em arte

Quando as imagens do incêndio do Museu Nacional/UFRJ percorreram o mundo em setembro de 2018, Vik Muniz estava fora do Brasil. A reação foi imediata. Reconhecido internacionalmente por transformar materiais carregados de significado em obras de forte impacto visual e emocional, o artista decidiu responder à tragédia por meio da arte. Daquele impacto nasceu a série Museu de Cinzas, núcleo central de Rescaldo das Memórias, utilizando as próprias cinzas recolhidas nos escombros do incêndio. Vik Muniz recria nesta série artefatos que integravam um dos mais importantes acervos científicos e culturais da América Latina. O resultado é uma exposição profundamente comovente, que une arte, ciência, tecnologia e patrimônio em uma reflexão sobre perda, reconstrução e permanência.

O conjunto reúne 11 fotografias e nove esculturas inspiradas em peças emblemáticas do acervo do Museu Nacional/UFRJ. Nas fotografias, Vik Muniz utiliza as próprias cinzas recolhidas nos escombros para compor imagens de peças que integravam o acervo do Museu Nacional/UFRJ. Depois de cuidadosamente organizadas pelo artista, essas composições transitórias foram registradas fotográficamente, transformando vestígios da destruição em monumentos visuais à memória do Museu.

“Chorei ao saber do incêndio como se tivesse perdido algo pessoal, algum tipo de fio que mantinha unida a insanidade do meu presente. O Brasil é um país jovem, marcado por um descuido estratégico com sua própria história e por um apetite voraz pelo instantâneo. Nenhum outro lugar no Brasil reunia tanta história e tanta capacidade de provocar encantamento”, afirma Vik Muniz. Para o artista, transformar os resíduos do incêndio em obra também foi uma forma de reagir ao apagamento simbólico provocado pela tragédia e devolver ao Museu parte de sua presença material.

Arte contra o esquecimento

Rescaldo das Memórias reforça uma das características mais marcantes da trajetória de Vik Muniz: a capacidade de transformar materiais carregados de significado social, histórico ou afetivo em imagens capazes de reconfigurar nossa percepção da realidade.

A exposição, já apresentada em Nova York e Boston, EUA, evidencia também o papel da ciência na preservação da memória. Todas as esculturas foram produzidas em colaboração com pesquisadores do LAPID, laboratório responsável pela digitalização de parte significativa dos acervos do Museu antes do incêndio.

Graças a esse trabalho, muitos objetos puderam ser virtualmente preservados e são agora reconstituídos por meio de tecnologias de modelagem e impressão tridimensional. Algumas das esculturas apresentadas na mostra nasceram justamente desse processo, transformando arquivos digitais em novas materialidades capazes de preservar não apenas a forma dos objetos originais, mas também sua dimensão simbólica. A mostra revela como arte e ciência podem atuar juntas na reconstrução do patrimônio cultural brasileiro.

SERVIÇO

Rescaldo das Memórias; – Vik Muniz

Curadoria: Daniel Rangel

Museu Nacional/UFRJ

Quinta da Boa Vista – Palácio de São Cristóvão

Rio de Janeiro – RJ

Exposição: até 30 de agosto

De terça a domingo, das 10h às 16h

EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS NO MUSEU NACIONAL/UFRJ 2026

“Bastidores da Ciência” e “Rescaldo das Memórias”

Até 30 de agosto | Terça a domingo, das 10h às 16h

Entrada gratuita, com retirada de ingressos pela Sympla.

Cultura

Explore as novidades do universo das artes.

Joana Aleixo

fale conosco

jornalista/produtora cultural

© 2024. All rights reserved.

Escreva aqui o conteúdo do post