Natalia Salinas estreia no Theatro Municipal do Rio regendo Cavalleria Rusticana no Festival Oficina de Ópera

A maestrina argentina, em entrevista ao Sarau de Grã Finos, fala sobre a honra de subir ao histórico pódio carioca, a regência do drama verista e a missão de guiar novas gerações do canto lírico.

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9/11/20266 min read

Foto: Assessoria

A maestrina argentina Natalia Salinas faz sua estreia à frente do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao conduzir a obra Cavalleria rusticana, de Pietro Mascagni. A produção faz parte do Festival Oficina de Ópera, uma iniciativa focada na formação, no aperfeiçoamento e na preparação prática de novas gerações do canto e da música no Brasil. Para a regente, assumir a batuta em um projeto com este perfil reafirma a relevância de criar espaços institucionais que permitam aos jovens talentos vivenciar a engrenagem e o funcionamento interno de um grande teatro lírico.

Com uma carreira internacional dinâmica e versátil, Natalia acumula vivências que se dividem entre a regência sinfônica, o balé e a ópera em todo o mundo. Essa circulação constante por diferentes linguagens e culturas moldou sua postura para apresentações que desenvolve, exigindo uma escuta flexível e um trabalho atento tanto ao texto, à cena, ao tempo cênico e à construção sonora. Ao comentar sobre o desafio de reger a obra de Mascagni — marcada pela alta intensidade e condensação dramática do estilo verista —, a experiente regente enfatiza a busca pelo equilíbrio entre a tradição interpretativa e a identidade de cada produção.

Em entrevista ao Sarau de Grã Finos, a maestrina, refletiu sobre a responsabilidade de honrar a memória artística de um dos palcos mais emblemáticos da América Latina, destacou a importância vital de criar espaços institucionais de formação para as novas gerações do canto lírico e detalhou como sua múltipla trajetória internacional moldou sua liderança orquestral.

Fotos: Daniel Ebendiger

Entrevista com a maestrina Natalia Salinas para o Sarau de Grã Finos

Sarau de Grã Finos: Sendo uma regente argentina com trajetória internacional crescente, qual é o significado de fazer a sua estreia à frente do Theatro Municipal do Rio de Janeiro? E qual a sua expectativa em conduzir Cavalleria rusticana dentro de um festival focado na formação e no aperfeiçoamento de novos talentos da ópera brasileira?

Natalia Salinas: Estrear no Theatro Municipal do Rio de Janeiro é, para mim, um momento de grande significado. Nestes dias de ensaio, voltei a me aproximar da história deste teatro, prestando especial atenção à quantidade de grandes artistas que já passaram por este mesmo palco. Isso é, antes de tudo, algo profundamente inspirador, e me gera muito respeito e responsabilidade: sinto que subir a este pódio é, de alguma forma, honrar a memória desses grandes artistas que vieram antes. Durante muitas décadas, os grandes teatros da América Latina ocuparam um papel de destaque no cenário lírico internacional, recebendo figuras de renome. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, assim como outras casas de ópera do continente, preserva até hoje essa tradição operística, e reger em diferentes países da América Latina e da Europa me permite observar, de perto, como essa tradição se mantém viva e, ao mesmo tempo, se renova em cada teatro, em cada elenco, em cada público. Conduzir Cavalleria rusticana dentro de um festival dedicado à formação de novos talentos da ópera brasileira me leva a pensar na importância de que um teatro gere espaços de formação para as próximas gerações. Em nossos anos de formação, passamos muitas horas dentro dos teatros, transitando de uma produção a outra e aprendendo o funcionamento interno, a engrenagem que se desenvolve para que um projeto venha à luz. Poder ultrapassar essa instância e assumir a responsabilidade por um projeto é um passo necessário, que depende da confiança institucional — e, nesse sentido, o espaço que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro proporciona é único no mundo. Acompanhar essas novas gerações em todas as etapas é fundamental, e espero que esse espaço tenha uma longa vida.

Sarau de Grã Finos: Sua carreira se divide de forma muito dinâmica entre a regência sinfônica, o balé e a ópera em palcos das Américas e da Europa. De que maneira essa vivência transitando por diferentes linguagens e culturas moldou a sua identidade como regente e a sua forma de liderar uma orquestra?

Natalia Salinas: Essa diversidade de linguagens sempre esteve presente na minha formação, e hoje entendo que ela também moldou minha maneira de trabalhar. Cada gênero impõe uma lógica própria: a ópera exige um diálogo constante com o texto, o canto e a cena; o balé, uma escuta muito precisa do corpo e de tempo cênico; a sinfônica, uma construção sonora que se sustenta por si só, sem outros elementos em cena. Transitar entre esses universos me obrigou a desenvolver uma escuta mais flexível e, ao mesmo tempo, mais atenta aos detalhes específicos de cada linguagem. Nessa mesma lógica se aplica à experiência de trabalhar em diferentes países. Cada orquestra, cada elenco, carrega uma tradição e uma forma de trabalho próprias, e acredito que liderar, nesse contexto, significa antes de tudo saber ouvir essas diferenças e construir, a partir delas, um resultado coerente. Entendo que cada uma dessas experiências me enriquece de forma permanente e continua me transformando — essa circulação constante entre gêneros e culturas se tornou parte da minha identidade como regente: não uma forma fixa de trabalhar, mas uma disposição permanente para adaptar-me sem perder clareza de critério.

Sarau de Grã Finos: Em suas declarações, você destacou que Cavalleria rusticana concentra em um único ato todo o drama típico do gênero verista. Como você trabalha com os músicos e solistas para sustentar essa tensão emocional ininterrupta sem desgastar a linha vocal, garantindo o equilíbrio entre o impacto da cena e a fidelidade à partitura?

Natalia Salinas: Cavalleria rusticana é uma ópera relativamente breve, mas concentra, num único ato, toda a intensidade dramática típica do verismo. Em óperas de maior extensão, o desenvolvimento dos personagens ao longo de suas experiências costuma se estender por várias horas e diversos atos; aqui, esse mesmo processo acontece de forma condensada em pouco mais de uma hora. Isso faz com que cada frase, cada gesto musical e cada silêncio adquiram um peso considerável, e exige dos intérpretes uma concentração particular para construir essa evolução dramática em tão pouco tempo. A escrita de Mascagni é extremamente detalhada, e temos ainda o privilégio de contar com um registro de sua própria experiência regendo Cavalleria — uma informação muito valiosa e praticamente única para a época, que nos aproxima não só da partitura, mas de uma tradição interpretativa muito próxima do compositor. Os estudos musicológicos e as pesquisas sobre práticas interpretativas oferecem hoje elementos importantes para dialogar com essa tradição e com a forma como compreendemos essa música atualmente. Não se trata, para mim, de escolher entre tradição e renovação. A tradição italiana e o estilo da obra estarão sempre presentes, mas cada produção também precisa encontrar sua própria identidade. Esse equilíbrio é construído em diálogo muito próximo com os solistas, a partir das necessidades específicas de cada produção e dos artistas envolvidos — é exatamente esse diálogo que permite sustentar a tensão dramática sem desgastar a linha vocal ao longo da obra.

Sarau de Grã Finos: Estar à frente do Festival Oficina de Ópera coloca você em contato direto com os futuros nomes do canto e da música no Brasil. Que mensagem você deixa para esses novos profissionais sobre a importância do aprendizado contínuo e da entrega artística no palco e no fosso?

Natalia Salinas: A carreira de um músico exige uma preparação constante, independentemente da etapa profissional em que estamos. Novos projetos, repertórios e contextos de trabalho nos exigem estar permanentemente estudando e nos preparando. Cada projeto demanda tempo de estudo e também uma organização de vida bastante particular. Muitas vezes, enquanto estamos trabalhando em um programa, já estamos preparando o próximo. Essa simultaneidade exige disciplina, organização e disponibilidade pessoal. Essa preparação também nos dá liberdade no momento de fazer música: quanto maior o domínio daquilo que estamos realizando, maior a possibilidade de tomar decisões conscientes, responder às situações que surgem durante o trabalho e encontrar soluções próprias. Mas o estudo não termina no domínio técnico da obra. Ele deve ampliar nossa capacidade de escuta, de diálogo e de expressão, para que, no momento da performance, possamos estar verdadeiramente disponíveis para a música. É nesse ponto que preparação e entrega artística se encontram.

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Joana Aleixo

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jornalista/produtora cultural

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