O célebre desconhecido

Da tentativa histórica de embranquecimento do maior compositor das Américas ganha um contraponto no aniversário do Theatro Municipal do Rio, que quebra um jejum de 80 anos para imortalizar o Carlos Gomes real com a ópera Salvator Rosa.

CRÔNICASGRÃFINÍSSIMO

Joana Aleixo é jornalista, produtora cultural e estudante de música

7/4/20265 min read

Registro Flagrante: Carlos Gomes com traços europeizados e olhos azuis artificiais, antes de ser retirado da exposição após os questionamentos.

Eu sempre fui uma pessoa curiosa. Curiosíssima, eu diria. Quando criança, lembro que minha avó, quando estava adoentada, proibia a minha mãe de me deixar na casa dela — e nós éramos muito agarradas. Isso porque eu simplesmente abria todas as gavetas da casa para saber o que tinha dentro; eu tirava tudo do lugar para achar algo novo. E foi assim que me tornei jornalista: pela curiosidade. Na verdade, eu queria salvar o mundo, mas isso é outra história. No início da minha carreira, fui repórter policial — e das boas. Consegui ser ameaçada por uma facção criminosa e pela polícia. Sucesso! Mas esta crônica não é sobre mim e o meu poder de incomodar. É sobre o mais célebre compositor brasileiro de todos os tempos: Carlos Gomes.

Quando iniciei meus estudos de música, a primeira coisa à qual me dediquei foi a literatura musical. Precisava entender quem realmente foram Beethoven, Bach e, sim, Carlos Gomes. Desse último, a minha memória mais viva era a da abertura do programa de rádio A Voz do Brasil, que trazia o trecho da protofonia de O Guarani, com aqueles acordes marcantes e heroicos dos metais (trompetes e trombones) que todo brasileiro reconhece logo nos primeiros segundos, seguidos pelo famoso "tam-tam-taram-tamm..." das cordas. Algo glorioso. Afinal, o aluno do então Conservatório de Música do Rio de Janeiro — maior instituição musical de todos os tempos, estabelecido na capital do Império desde 1848 sob a inspiração de seu criador, Francisco Manoel da Silva, mais tarde transformado em Escola Nacional de Música e, na atualidade, Escola de Música da UFRJ — foi onde, após chegar de Campinas, Gomes seguiu seus estudos, ganhou uma bolsa e partiu para Milão, na Itália. Naquele país, Carlos Gomes fez carreira como o maior compositor das Américas.

No próximo dia 14/07, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro completa 117 anos e, para comemorar essa data mais que especial, será encenada a obra Salvator Rosa, de Carlos Gomes, que desde 1946 não é apresentada no palco do Municipal. Essa obra foi feita após o fracasso de Fosca, ópera que sempre foi comparada a La Gioconda, de Verdi. No entanto, Fosca estreou em 1873, e o sucesso imortal de Verdi, em 1876. Logo, existe um forte indício de que a obra do compositor brasileiro tenha servido de inspiração para La Gioconda. Fato é que Carlos Gomes fez Salvator Rosa para o público italiano, e Fosca para os entendidos. Era um enredo folhetinesco e colorido, com um personagem da história da Itália. No folhetim, Gomes retornou ao mesmo sacrifício de amor, aos mesmos venenos e suicídios. O fatal triângulo amoroso, desta vez, contava com dois tenores, fato raro para o melodrama da época. Afinal, uma das definições mais famosas da ópera italiana é aquela em que a soprano quer se casar com o tenor, mas é impedido pelo barítono.

Voltando à minha obsessão por “investigar”. Há cerca de um ano e meio, fui a uma exposição de uma famosa orquestra brasileira e tinha um painel de Carlos Gomes entre muitos outros personagens. Quando me deparei com a figura de Carlos Gomes — que, convenhamos, é caricata, com o bigode envergado e os cabelos desgrenhados —, notei algo estranho. Esse Carlos Gomes em questão, apesar de estar em um tamanho de quase dois metros e impresso em preto e branco, tinha olhos azuis. Quando vi aquela imagem, pensei: "Ué, não sabia que Carlos Gomes tinha olhos azuis". Pois, em preto e branco, a imagem me remetia a um homem branco, mas não naquele nível de figura europeia. Cacei o produtor da mostra e, em tom de curiosidade, perguntei: — Olá, aquele painel é de Carlos Gomes? — Sim — respondeu o produtor, com uma cara de quem olha para uma pessoa ignorante. Segui meu questionário: — Não sabia que Carlos Gomes tinha olhos azuis. Indaguei — Fizemos uma pesquisa minuciosa nos arquivos e, ao tratar as fotos, descobrimos que ele tinha os olhos azuis. Por isso resolvemos expor assim — revelou o produtor. — Ah, tá. Obrigada — respondi, muito intrigada.

Em seguida, encontrei com minha professora de música, uma pessoa muito inteligente, e perguntei sobre o assunto. Ela afirmou que, pelo que havia estudado, Carlos Gomes era pardo ou negro e nunca soube de olhos azuis. Uma aluna negra retinta já começou um discurso sobre o embranquecimento histórico e avisou, em tom de revolta: "Eles pegam as pessoas históricas no Brasil e as deixam o mais brancas que podem". Aquilo me intrigou. Ao encontrar minha outra professora, essa de história da música, fiz a mesma pergunta. Ela me deu o livro A Força Indômita, sobre Carlos Gomes, e mandou que eu pesquisasse. O que fiz muito eufórica, como quem está prestes a descobrir um furo de reportagem.

Antônio Carlos Gomes nasceu a 11 de julho de 1836, em Campinas, filho do escrivão e alfaiate Manoel José Gomes (1792-1868), conhecido como Maneco Músico, este um homem branco. Em muitos livros não existe o registro sobre a mãe de Carlos Gomes, que dizem ser indígena ou remotamente negra. No próprio livro de Marcus Góes, ele deixa claro que Carlos Gomes era pardo, e não branco ou negro retinto. Mas olhos azuis? Estes ele nunca teve. No livro A Força Indômita, não se diz quase nada sobre a mãe dele. Continuei minha pesquisa e, lendo a Revista Brasileira de Música no arquivo digital da UFRJ, na edição de 1934 (que fez um especial sobre a Fosca), encontrei uma menção a Fabiana Maria Jaguary Cardoso, a "Nhá Biana", apagada justamente por questões de raça. Mais recentemente, assistindo a uma série de entrevistas no canal Entre Óperas sobre Salvator Rosa, foi mencionado que Fabiana foi assassinada, possivelmente pelo pai de Carlos Gomes. O que explicaria o sumiço dos documentos oficiais sobre a mãe do compositor e, mais ainda, muitos comportamentos reprimidos do "Tonico".

O painel da exposição acabou sendo retirado. Carlos Gomes era brasileiro, pardo, de olhos castanhos e visual desgrenhadamente exótico. Ele estreou no Teatro Alla Scala de Milão a ópera O Guarani em 1870, sendo o primeiro brasileiro a alcançar esse feito, e cunhou muitas outras óperas de sucesso no exato lugar onde esse estilo puramente dramático foi inventado. Na época do Império, tida como a era de ouro da nossa música erudita, o “Índio de Bigode" fez história em solo italiano. Mas Carlos é brasileiro, se parece com os brasileiros e não pode, nem deve, ser apagado pelo tempo — ou pela falta de interesse histórico — como um homem branco europeu. Ele foi genial em seu tempo, e as características que o levaram ao sucesso são exatamente as de ser genuinamente brasileiro.

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Joana Aleixo

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