O Excesso como Linguagem: A Estética do Descarte na Obra de Sandra Lapage

O cerne da produção recente de Lapage reside na descontextualização radical de resíduos cotidianos, com especial protagonismo para as cápsulas de café em alumínio e plásticos descartados.

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6/10/20262 min read

Ophrys sphegodes speculum

A exposição individual “Cortejo de um cão da lua”, de Sandra Lapage — sob a curadoria de Fabrício Reiner na Galeria Contempo, em São Paulo —, bem como a instalação monumental ‘O dragão e a lua’, em exibição simultânea no Shopping Leblon, operam como potentes exercícios de investigação material e espacial. Longe de se limitarem a uma abordagem puramente ecológica ou utilitarista da reciclagem, as obras da artista propõem uma densa reflexão dissertativa sobre a sociedade de consumo, a acumulação e a relação do corpo com o espaço urbano e arquitetônico.

Cinco das dez obras apresentadas na Contempo são inéditas e estruturam um núcleo recente da produção de Sandra Lapage. Entre elas, destaca-se uma instalação de grandes dimensões, com cerca de 3 metros, apresentada suspensa no espaço expositivo. O conjunto é formado predominantemente por cápsulas de café em alumínio, descaracterizadas de sua função original, além de plásticos e outros materiais reciclados, em uma pesquisa que investiga a transformação desses resíduos em composições poéticas, espaciais e de caráter interativo. A leitura imediata do material não remete à bebida; apenas uma observação mais atenta revela sua origem.

O conjunto propõe diferentes modos de leitura e aproximação, convidando o visitante a percorrer, contornar e atravessar as obras, em relações que se constroem entre corpo, arquitetura e matéria. Sobre a exposição, Sandra Lapage conta: “Esta instalação é uma oportunidade de resposta ao espaço, em que ao dispor as peças em dança e convidar o público a negociar a relação do corpo com o acúmulo da matéria, proponho uma experiência imersiva da materialidade e da revelação da natureza dos elementos do trabalho. ”

Máscara Elx, 2020

Segundo o curador da mostra, Fabricio Reiner, trata-se de uma experiência que se desdobra a partir da relação direta com o espaço e com o corpo do visitante: “O que me interessa no trabalho da Sandra é a maneira como ela transforma o excesso em linguagem: materiais industriais e descartados — como cápsulas e superfícies laminadas — ganham presença, brilho e força, revelando algo essencial sobre uma cultura que produz excesso como condição de existência. Ao atravessar escultura, vestimenta, instalação e performance, seu trabalho constrói uma linguagem híbrida, em que ornamento e espetáculo deixam de ser apenas sedução e passam a operar também como evidência crítica do presente. ”

A exposição reforça a pesquisa de Sandra Lapage sobre processos de acumulação, descarte e reconfiguração de materiais, em que resíduos do cotidiano são reorganizados em estruturas sensoriais e narrativas espaciais. O título “Cortejo de um cão da lua” sugere uma dimensão simbólica que atravessa a mostra, evocando ideias de deslocamento, ritual e transformação.

A carreira da artista inclui exposições em instituições como o Institute of Contemporary Art de Portland, nos Estados Unidos, além de bolsas e prêmios internacionais, como a Pollock-Krasner Foundation e o Repaint History Artist Fund. Sua prática investiga processos de acumulação, descarte e reconfiguração de materiais, propondo estruturas em que resíduos do cotidiano são reorganizados em experiências sensoriais e espaciais.

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Joana Aleixo

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jornalista/produtora cultural

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