O Francês mais Carioca do Rio: Alexis de Vaulx Abre o Carnaval com Toque de Realeza
Como o intercâmbio entre Nice e o Rio de Janeiro transformou a festa popular no maior espetáculo da Terra.
CRÔNICASGRÃFINÍSSIMO
Joana Aleixo é jornalista, produtora cultural e estudante de música e história da arte.
2/2/20265 min read


Fotos: Flavinha Freitas
O Carnaval carioca é uma explosão de brasilidade. Muito antes da abertura oficial da festa mais popular do planeta temos inúmeros blocos carnavalescos, feijoadas e bailes de máscaras que traduzem a paixão do brasileiro por essa festa tão peculiar e nos coloca no circuito global como o povo mais alegre do mundo. A Feijoada Joia, ou do Francês, como é carinhosamente conhecida pelo público carioca, é comandada há 16 anos por Alexis de Vaulx e ganhou o coração dos apaixonados pelo Carnaval, se consolidando a cada ano como a Feijoada mais querida da Cidade Maravilhosa. Mas, você sabia que as raízes do carnaval brasileiro bebem diretamente da fonte francesa, especificamente do Carnaval de Nice, na França? Essa linhagem que o francês mais carioca do Brasil traz a cada edição da famigerada Feijoada. É sobre essa relação que começou com Dom Pedro II que vamos abordar por aqui.


Entre a deliciosa feijoada gourmet oferecida pelo chef Ataniel Sousa com chancela do Sheraton Rio, um público animado e selecionado festejou a chegada do Carnaval 2026, no último sábado, ao som da bateria da Grande Rio, tendo como musa a eterna paquita Adriana Bombom. A coroação da rainha da festa Lorena Maria teve o séquito acompanhamento da Corte Real do Carnaval Carioca, patrocinado pelo Riotur, na qual, a Rainha da Feijoada do Francês recebeu a coroa das mãos do idealizador do evento Alexis de Vaulx. Para complementar a fabulosa festa que enalteceu a relação de 200 anos entre Brasil e França a cantora Luiza Dionizio, uma mulher preta, vivaz e com uma voz espetacular ecoou os maiores sambas da música popular brasileira. E se o carnaval é uma eterna fantasia, a Desiree Cher foi a prova que performance e criatividade é o ponto alto do brasileiro.
Para o francês Alexis de Vaulx, a ideia de fazer uma Feijoada para festejar a relação entre os dois países começou em 2009, no ano do Brasil na França, na qual, ele levou uma comitiva do Carnaval Carioca para a Cidade Luz com intuito de intercâmbio cultural. Apaixonado pela cultura brasileira e seu viés popular, Alexi festeja o sucesso da Feijoada que entrou no calendário do Carnaval Carioca. Ele afirma que o diferencial da feijoada dele está no fato de ser regada a champagne e ter a Corte Real dentro do evento, o que torna tudo mais autêntico. “O Carnaval se resume a um momento. Um momento que você pode ser quem quiser. Essa é a liberdade do Carnaval” - filosofou o francês mais carnavalesco do Rio.


Desfile do Corso, durante o carnaval do Rio, 1914. Fotos: Acervo
Feijoada com selo francês em solo carioca
No século XIX, a elite carioca buscou em Nice a inspiração para civilizar o Carnaval de rua, que até então era marcado pelo "Entrudo", uma brincadeira mais bruta com água e farinha, que vinha da herança portuguesa. O Carnaval de Nice era famoso pela elegância e pelos carros alegóricos monumentais, o diferencial com a festa brasileira é que em Nice, a apresentação era para ser assistida. Já no Brasil, o povo é quem faz a festa acontecer. Nice foi o laboratório do carnaval brasileiro como espetáculo turístico. Enquanto Paris oferecia os bailes de gala, Nice, um balneário de elite, criou o Corso, que serviu de inspiração direta para o nosso carnaval. O lançamento de confetes, serpentinas e a "Batalha de Flores" ,comuns na cidade francesa, foram trazidos para o Rio de Janeiro para substituir os limões de cheiro e a farinha do Entrudo. A partir daí, surgiram os personagens clássicos da Commedia dell'Arte que Paris havia adotado: Pierrô, Arlequim e Colombina. No Rio, os foliões, como não tinham dinheiro para sedas, as classes populares criaram os Clóvis, uma adaptação de clown, palhaço, evoluíram para os famosos Bate-Bolas. Eles usavam máscaras de gesso ou papelão e roupas feitas de retalhos ou materiais baratos, transformando o "elegante" palhaço europeu em algo barulhento, vibrante e, por vezes, assustador.


Batalhas das Flores, 1902, Rio de Janeiro. Acervo FBN
Enquanto a elite carioca se trancava nos teatros para mimetizar os bailes de máscaras franceses, o povo fundava os Cordões. Grupos que misturavam a estética das procissões religiosas com danças de matriz africana, como o jongo e a capoeira. O governo tentou proibi-los diversas vezes por serem considerados "perigosos" e "barulhentos demais". Um exemplo clássico dessa reação foi o surgimento do Zé Pereira, criado pelo português José Nogueira de Azevedo Paredes. Enquanto a elite queria valsas e polcas suaves ao estilo francês, o Zé Pereira saiu às ruas batendo um bumbo frenético. Esse barulho ensurdecedor era um "protesto sonoro" contra a delicadeza dos bailes de máscara, provando que o Carnaval carioca preferia a percussão ao violino.
Com o passar do tempo, o Carnaval deixou de ser apenas uma brincadeira espontânea para se tornar um projeto visual brasileiro que emprega milhares de pessoas que vivem exclusivamente desta festa tipicamente brasileira. A partir da década de 1960, carnavalescos como Fernando Pamplona e Joãosinho Trinta transformaram o desfile em uma narrativa artística de grande porte. Alexis de Vaulx faz o caminho inverso e complementar: ele pega a maior festa popular do mundo, que o Rio transformou em algo único, e a devolve para um ambiente de celebração "à francesa". É como se a Feijoada fosse um ponto de encontro onde o luxo da Côte d'Azur encontra o "borogodó" brasileiro.


A Feijoada do Francês não é apenas o start do Carnaval carioca por acaso; ela é um reencontro histórico. Poucos sabem, mas o Carnaval moderno do Rio tem raízes profundas no Carnaval de Nice, na França, de onde herdamos o glamour dos desfiles e a tradição dos grandes eventos sociais. Ao realizar sua 16ª edição no Sheraton, Alexis de Vaulx não está apenas celebrando o samba, mas honrando esse intercâmbio cultural secular. É a sofisticação europeia servida com o tempero e a energia que só o carioca possui. De Nice para a Sapucaí, a história se repete com novos brindes e muito swing.