O gesto que desperta o imaginário: Karen Acioly revela os caminhos poéticos da 23ª edição do FIL
Em entrevista exclusiva, a encenadora Karen Acioly detalha os bastidores do festival, a estreia da ópera infantil "Larilá" e o impacto da arte no imaginário do público.
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9/17/20267 min read


Karen Acioly, inventora, diretora geral e curadora do FIL. Foto: Renata Duharte
O FIL – Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens abre hoje a sua programação dentro da Semana de Arte do Rio. Instalado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Rio), o evento receberá atrações da Argentina, do Chile, da Espanha e de diversos estados brasileiros entre os dias 17 e 27 de setembro, entrelaçando teatro de formas animadas, marionetes, música, circo, ópera, cinema e artes digitais. Idealizado e dirigido pela encenadora Karen Acioly — que nesta 23ª edição traz o tema "A Poética dos Imaginários" —, o festival teve seus bastidores detalhados pela curadora em entrevista exclusiva ao Sarau de Grã Finos. Na ocasião, Karen reafirmou a vocação intergeracional e multidisciplinar do evento ao ocupar o Centro do Rio de Janeiro com uma programação diversa, que se estende do rap e das artes digitais até a ópera infantil.
Em destaque nesta edição está o lançamento e a leitura musicada da ópera infantil Larilá, de autoria de Karen. Inspirada no encontro da diretora com uma criança em situação de rua, a obra joga luz sobre as infâncias invisibilizadas. A edição também celebra a consolidação do FIL após seu recente reconhecimento, em 2025, como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro, marco que reforça o compromisso do evento na garantia de acesso contínuo à arte para crianças e famílias.
Ao abordar o processo curatorial, Karen define o evento como um "organismo de relações" e uma "arquitetura de possibilidades", onde linguagens como o teatro documental, o cinema e o teatro de animação se entrelaçam. Apoiando-se em sua pesquisa acadêmica sobre os impactos do evento ao longo dos anos, a idealizadora destaca a capacidade do festival de gerar memórias duradouras, formar novas parcerias e estimular a imaginação espontânea do público.


Foto: Raimon Ruiz – Espetáculo espanhol NIL
Sarau de Grã Finos: A 23ª edição do FIL traz como tema "A Poética dos Imaginários". De que maneira essa provocação se traduz na escolha dos espetáculos e nas linguagens desta edição?
Karen Acioly: Todo o trabalho de curadoria do FIL parte de uma provocação: como uma experiência artística pode movimentar os imaginários de quem a vivencia e, a partir dessa experiência, produzir novos sentidos? É nesse território que compreendo a poética dos imaginários. Não se trata apenas de apresentar obras ou de reunir diferentes linguagens artísticas, mas de criar condições para que algo aconteça entre a obra e aquele que a experimenta. Uma experiência que provoca, desloca, surpreende ou comove pode produzir ressonância e repercussão. Muitas vezes, escolho uma obra porque ela me afetou profundamente e porque consigo imaginar que essa experiência poderá também produzir alguma coisa em quem a assiste. O gesto curatorial começa, portanto, nessa pergunta: o que esta obra pode provocar no imaginário do outro? Essa perspectiva se tornou ainda mais evidente durante minha pesquisa, quando tive a oportunidade de acompanhar cinco festivais internacionais dedicados às marionetes e às formas animadas. Os espetáculos me afeiçoam não apenas pela excelência formal, mas pela maneira como instauravam uma relação muito particular entre matéria, movimento, presença e imaginação. Ao conversar com os artistas, percebi como a ideia de alma aparecia recorrentemente. Uma marionete é matéria, mas aquilo que projetamos sobre ela faz com que deixe de ser apenas matéria. Há uma espécie de pacto imaginário: atribuímos vida, intenção, memória e humanidade. O objeto passa a ser habitado pelo olhar de quem o observa. É justamente nesse espaço de projeção que a linguagem das formas animadas se torna tão potente.
É também por isso que, no FIL, as linguagens não aparecem necessariamente separadas. Elas se atravessam, contaminam-se e se amalgamam. As marionetes podem dialogar com o teatro, as artes visuais, a música, a dança, o cinema ou as tecnologias digitais. O teatro documental pode encontrar as artes digitais; a memória pode encontrar a presença; o objeto pode encontrar o corpo; o real pode encontrar o imaginário.
Sarau de Grã Finos: O FIL foi reconhecido em 2025 como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio. O que esse marco altera na trajetória e na responsabilidade do festival para o futuro?
Karen Acioly: Esse marco nos dá a certeza que devemos continuar, sem esmorecer, porque nossa meta é conseguir garantir e assegurar, por meio do FIL Festival, o acesso das crianças à experiência da arte, em sua diversidade. Para isso é necessário também o reconhecimento estrutural de sua continuidade também por meio de patrocínios e parcerias continuadas.


Foto Lais Cupoli – Batalha Oroboro
Sarau de Grã Finos: Com uma programação que vai da ópera infantil às artes digitais e ao rap, como o festival busca equilibrar o diálogo entre diferentes gerações no CCBB Rio?
Karen Acioly: Nosso desejo é misturar as tribos: pessoas de todas as gerações, de diferentes linguagens, experiências e modos de olhar o mundo. Porque acreditamos que, quando os universos dessas tribos se encontram, uma pessoa que chega atraída por uma linguagem pode se deixar surpreender por outra. E, nesse movimento, novos encontros acontecem, novos amigos se formam, novas parcerias surgem - e até novos casamentos. O FIL já foi cenário de muitos desses encontros. Algumas amizades começaram ali e continuam atravessando os anos. Outros encontros se transformaram em parcerias, projetos, afetos e histórias compartilhadas. Ao mergulhar na pesquisa para a minha tese, pude perceber algo que talvez já soubéssemos intuitivamente: os encontros notáveis que acontecem no FIL não terminam quando o festival acaba. Eles reverberam. Continuam na vida, nas relações, nas criações e nas memórias de quem passou por ele. Talvez seja essa uma das forças mais bonitas de um festival: criar um lugar para que as pessoas se encontrem - e, de algum modo, continuem se encontrando depois.
Sarau de Grã Finos: Como o FIL se conecta e contribui para a proposta da 1ª Edição da Semana de Arte do Rio na ocupação cultural do centro da cidade?
Karen Acioly: Costumo dizer que o FIL é o festival mais charmoso desta cidade. Talvez porque ele tenha essa vocação tão particular de reunir do bebê ao avô - diferentes gerações, diferentes sensibilidades, imaginários e diferentes formas de experimentar a arte. A intergeracionalidade, somada à multiplicidade de linguagens artísticas, cria a possibilidade de que a experiência da arte alcance as crianças e, ao mesmo tempo, envolva toda a família. É isso que faz do FIL, dentro da Semana da Arte, um diferencial tão especial: um festival pensado para a família carioca, mas também aberto ao mundo, aos intercâmbios e à internacionalização dessa experiência. O FIL tem um perfil muito singular na cidade. E, a cada edição, renovamos o nosso compromisso de reunir o melhor da criação nacional e internacional, trazendo artistas, obras e linguagens que atravessam fronteiras e gerações. São 23 anos de maravilhas, de encontros e de descobertas. E continuamos, todos os dias, caprichando para que cada edição seja uma nova oportunidade de celebrar a arte, a infância, a juventude, a família e esse imenso território de possibilidades, saberes que se abrem e dialogam quando diferentes mundos se encontram.


Sarau de Grã Finos: Além da direção geral do evento, você lança o livro e a ópera infantil Larilá. Como sua pesquisa acadêmica e sua veia autoral alimentam o seu trabalho na curadoria do festival?
Karen Acioly: Neste ano, finalmente vou conseguir lançar o livro. No FIL, faremos o pré-lançamento e, como o livro ainda não estará pronto, vamos celebrar esse momento com uma leitura musicada da ópera infantil Larilá. Isso me enche de orgulho e de emoção. Larilá é uma obra muito querida para mim. Ela fala das infâncias invisibilizadas — entre elas, as infâncias que encontramos nos sinais de trânsito, vendendo produtos para ajudar suas famílias. A ópera nasceu de um encontro verdadeiro que tive com uma criança em um desses sinais. Foi um encontro que me atravessou e que, de alguma maneira, eu abracei com muito amor e transformei em criação. Sobre a tese: a minha pesquisa acadêmica acabou comprovando coisas que eu já intuía na prática, mas que pude comprovar também na teoria dos estudos do imaginário. Ao entrevistar pessoas que acompanharam as mais de dez edições do FIL, pude perceber como essas experiências permaneceram enraizadas em suas memórias e, ao longo do tempo, se transformaram em criações, escolhas e novas maneiras de olhar o mundo. O mais bonito foi perceber o quanto o FIL inspira uma ideia de liberdade, de imaginação e de criação espontânea. Em uma das propostas da pesquisa, pedi que cada pessoa desenhasse um animal inventado que representasse o FIL. E todas, sem exceção, inventaram animais alados — ou desenharam fios que voavam. Achei essas imagens absolutamente reveladoras. As asas transcendem e os fios que voam nos conduzem para além do que é visto; é o fio que transcende, que liga, que imagina outros mundos. Talvez por isso a Fênix seja o símbolo tão potente desta edição. Porque o FIL também é feito dessa capacidade de se reinventar, de renascer, de transformar memória em criação e de fazer voar aquilo que, um dia, começou apenas como um fio.