O Gigante e o Espelho: Maio une Monumentalidade e Reflexão no Municipal de São Paulo

Entre a potência sonora da "Sinfonia dos Mil" e o teatro intimista sobre pressões estéticas, o Municipal de São Paulo abre o mês com uma programação que desafia os sentidos e o pensamento.

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4/27/20264 min read

Fotos: Larissa Paz

O mês de maio no Theatro Municipal de São Paulo já no início será marcado pelo contraste harmonioso entre a grandiosidade sonora e a intimidade reflexiva. Unindo a força monumental de um dos maiores clássicos da música erudita à provocação contemporânea das artes cênicas, a programação convida o público a transitar entre a Sala de Espectáculos e a Cúpula, explorando temas que vão da transcendência espiritual às pressões estéticas da modernidade.

Pela primeira vez em muito tempo, o público paulistano poderá testemunhar a Sinfonia nº 8 de Gustav Mahler, a famosa "Sinfonia dos Mil". Sob a batuta de Roberto Minczuk, a Orquestra Sinfônica Municipal se une a três coros e oito solistas para uma execução de tirar o fôlego. O programa ainda traz o frescor de Ellen Reid, vencedora do Pulitzer, com uma obra que celebra o centenário do voto feminino, estabelecendo um diálogo potente sobre o papel da voz na sociedade. Os ingressos custam R$100, a classificação é livre e a duração de 110 minutos, com intervalo.

Enquanto o palco principal vibra com a orquestra, o projeto Teatro no Theatro ocupa a Cúpula com a peça "Na Sala dos Espelhos". Adaptada da obra de Liv Strömquist, a montagem encara de frente a crise de autoestima de jovens mulheres diante dos padrões de beleza. É uma oportunidade rara de ver a atuação premiada de Carolina Manica em uma narrativa lúdica, que funciona como um espelho crítico para o mundo contemporâneo. A montagem será encenada na Cúpula em seis apresentações nos dias 01, 02, 08 e 09, às 20h, e nos dias 03 e 10, às 18h. A peça tem ingressos gratuitos, com distribuição de 50% dos lugares 48 horas antes de cada espetáculo, e o restante 60 minutos antes de cada espetáculo, a classificação é de 14 anos e a duração de 60 minutos, sem intervalo.

Sinfonia nº 8, de Mahler: Um presente para a humanidade

Esta foi a última obra que Mahler viu ser estreada em vida. Ao contrário de outras sinfonias, que levaram décadas para serem compreendidas, a Oitava foi um sucesso absoluto imediato, sendo descrita pelo compositor como "um presente para a humanidade". Embora o próprio Mahler não tenha criado este nome — Sinfonia dos Mil, ele foi cunhado pelo empresário Emil Gutmann para a estreia em 1910 — o título pegou devido ao contingente massivo necessário.

Na escala humana, exige uma orquestra sinfônica expandida, oito solistas, dois grandes coros adultos e um coro infantil. Na primeira apresentação, em Munique,foram de facto utilizados 1.030 músicos. No Municipal de São Paulo, embora o número possa variar por questões de espaço, a sonoridade permanece monumental. A obra é dividida em duas partes distintas que unem a tradição sagrada à literatura clássica.

Parte I: Baseia-se no hino latino do século IX Veni Creator Spiritus (Vem, Espírito Criador). É uma explosão de energia coral que invoca a inspiração e o intelecto humano.

Parte II: Adapta a cena final do Fausto de Goethe. Trata da redenção através do amor e da elevação espiritual. É nesta parte que entram os solistas interpretando personagens como a Mater Gloriosa.

Além de Roberto Minczuk, o concerto terá Hernán Sánchez Arteaga, na regência do Coro Lírico Municipal, Maíra Ferreira, na regência do Coral Paulistano, e Regina Kinjo, como regente do Coro Infanto Juvenil. Entre os solistas estarão: Ludmilla Bauerfeldt, Magna Peccatrix, Maria Carla Pino Cury, Una Poenitentium, Carolina Morel, Mater Gloriosa, Juliana Taino, Mulier Samaritana, Carolina Faria, Maria Aegyptiaca, Giovanni Tristacci, Doctor Marianus, Licio Bruno, Pater Ecstaticus, e Sávio Sperandio, Pater Profundus.

O repertório conta com When the World as You’ve Known It Doesn’t Exist, da compositora norte-americana Ellen Reid, vencedora do Prêmio Pulitzer, em uma abertura que também coloca a voz em evidência. A peça integra o Projeto 19 da Filarmônica de Nova York, que celebrou o centenário do voto feminino.

Foto: Paulo Vainer

A Reflexão na Cúpula

Um dos grandes diferenciais da encenação "Na Sala dos Espelhos" é a ocupação de espaços alternativos e arquitetonicamente fascinantes, como a Cúpula, permitindo uma proximidade maior entre público e artistas e uma linguagem teatral mais íntima e contemporânea. Com direção de Michelle Ferreira e Maíra De Grandi, idealização e atuação e de Carolina Manica, indicada ao APCA 2025 na categoria de melhor atriz pela peça, a montagem adapta a obra de Liv Strömquist e propõe uma reflexão sobre os padrões de beleza e seus impactos na formação de jovens mulheres.

O espetáculo acompanha a história de uma mãe que se depara com a crise de autoestima da filha pré-adolescente. A partir dessa relação, a narrativa convida a plateia a pensar, de forma lúdica e provocadora, sobre o chamado “mito da beleza” e os impactos sociais e emocionais que ele exerce sobre meninas e mulheres em um mundo contemporâneo marcado por pressões estéticas e culturais.

A encenação conta ainda com trilha sonora assinada por Ava Rocha e Grisa, direção de arte de Fábio Namatame e iluminação de Caetano Vilela, compondo uma atmosfera intimista e reflexiva.