O Guardião da Memória: Paulo Melgaço e a Missão de Preservar o DNA da Dança Clássica no Brasil

Um mergulho na trajetória da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, a mais antiga do país, onde a tradição russa encontra a diversidade brasileira sob a ótica de quem dedicou a vida a documentar a evolução do ballet.

ENTREVISTASGRÃFINÍSSIMO

5/14/20268 min read

Fotos: Daniel Ebendinger

Para o historiador, escritor e vice-diretor da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (EEDMO), Paulo Melgaço, a dança nunca foi apenas uma questão de passos milimétricamente perfeitos, mas um campo de batalha por visibilidade e inclusão. Homem negro e criado sob as narrativas de resistência de ícones como Abdias Nascimento e Ruth de Souza, Melgaço transformou sua vivência pessoal no universo da música clássica em missão pedagógica dentro da (EEDMO). Mais do que registrar a história da Escola de Dança e seus célebres integrantes, Paulo escreveu uma série de livros sobre às Instituições que faz parte com os seguintes titulos: Mercedes Baptista: a dama negra da dança, Escola Estadual de Dança Maria Olenewa: 75 anos, EEDMO 90 Anos: A História de uma Escola, Áurea Hämmerli: predestinada a ser bailarina e Theatro Municipal do Rio de Janeiro: Um Século de Espetáculos - Dança. Paulo utiliza as salas de aula para romper o silêncio que cercava trajetórias como a de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Municipal do Rio (1948), porém, mesmo tendo uma técnica impecável não era destacada pelo seu talento, mas inviabilizada pela cor da pele. A biografia de Mercedes Baptista escrita por Paulo Melgaço que a descreve como: "Dama Negra da Dança", abriu caminho para que o Theatro Municipal e a Escola Maria Olenewa repensassem seu papel e passassem a valorizar a diversidade racial que compõe o Brasil. A história de Mercedes Baptista é o relato de uma mulher que, ao encontrar as portas do ballet clássico brasileiro entreabertas e ser rejeitada, decidiu abrir portas inteiramente novas para todos que viriam depois dela. Paulo reafirma o desejo que corpos negros e indígenas não apenas ocupem o palco, mas sejam protagonistas de suas próprias narrativas.

Neste cenário de transição para o centenário da Instituição, a preservação do rigoroso cânone russo caminha lado a lado com a afirmação da identidade brasileira. Melgaço destaca que a Escola hoje é multirracial por consciência e luta, adotando práticas que vão do reconhecimento de sapatilhas em tons de pele à valorização estética do cabelo afro. Para o professor, a "linha tênue" entre a tradição clássica e os movimentos sociais é o lugar onde a EEDMO se ressignifica, entendendo que a excelência técnica só é completa quando permite que o bailarino dance com a dignidade de quem se sente, finalmente, pertencente àquela linguagem. Apesar dos avanços e do otimismo com a nova geração, o historiador não ignora os desafios do imediatismo tecnológico que os jovens de hoje trazem para o dia-a-dia, em contraponto ao longo caminho de preparação que o balé clássico exige, são nove anos de estudos para então, se tornar um profissional de dança, além de outras questões como as limitações orçamentárias que marcam o cotidiano da escola pública. Olhando para o futuro e como o autor de duas biografias sobre a Escola Estadual Maria Olenewa, Melgaço já vislumbra o "capítulo extra" dessa trajetória centenária com um desejo intrínseco que é, ao mesmo tempo, técnico e político: superar as barreiras cromáticas do ballet clássico. Se bailarinos negros já conquistaram o posto de príncipes, seu grande sonho é ver, em breve, uma bailarina negra retinta coroada como protagonista absoluta, selando o compromisso da EEDMO com uma beleza que é, por definição, diversa e soberana.

Entrevista exclusiva do historiador, escritor e vice-diretor Paulo Melgaço para o Sarau de Grã Finos

Sarau de Grã Finos: Em suas obras, o senhor documenta desde o rigor europeu de Maria Olenewa até a ruptura e inovação de Mercedes Baptista. Como a EEDMO hoje, prestes a completar 100 anos, sintetiza essas duas forças: a preservação do cânone clássico internacional e o reconhecimento das raízes e da diversidade da dança brasileira?

Paulo Melgaço: Trata-se de uma linha muito tênue. Somos umas das principais escolas de ballet clássico do país com tradição quase centenária, ao mesmo tempo percebemos a luta dos diversos grupos sociais por mais espaço na sociedade e a importância de novas traduções culturais. Neste sentido, nosso trabalho está atento a este momento, para além da valorização das diferenças, tentamos atender suas necessidades para que possam estudar, aprender e galgar espaço no mercado de trabalho. Em outras palavras, se anteriormente bailarinas como Mercedes Baptista, Consuelo Rios enfrentaram grandes dificuldades. Estas mesmas quando lecionaram na escola, nos ajudaram a pensar novos caminhos para luta antirracista, que é uma constante. E, atualmente, formamos vários bailarinos negros e negras, com certeza devemos formar muito mais, que buscam espaço no mercado. Reconhecemos e apoiamos o uso de meias e sapatilhas da cor da pele, a importância do cabelo para a cultura afro-brasileira. Também oferecemos diversas disciplinas complementares para que nossos alunos possam ampliar o leque de possibilidades profissionais. É lógico, tudo existe um limite, como uma escola profissionalizante, guardiã da técnica clássica, apesar de reconhecermos as diferenças físicas e artísticas de cada sujeito, precisamos trabalhar com corpos que atendem técnica e artisticamente as necessidades desta linguagem.

Sarau de Grã Finos: Ao escrever a primeira biografia de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do corpo de baile do Municipal, o senhor trouxe à luz não apenas uma trajetória de talento, mas também de resistência ao racismo estrutural da época. Como foi o processo de pesquisa para romper o silenciamento sobre a vida dela e de que maneira essa biografia ajudou a EEDMO a repensar a representatividade e a diversidade dentro de suas próprias salas de aula atualmente?

Paulo Melgaço: Em primeiro lugar é importante destacar que sou negro e na minha juventude me apresentaram nomes como: Mercedes Baptista, Consuelo Rios, Abdias Nascimento, Ironildes Rodrigues, Guerreiro Ramos. Com isso, cresci conhecendo estórias de vida, sabendo das lutas e resistências para ocupar espaços e ao mesmo tempo sabendo que pouco se falava sobre eles. A oportunidade de escrever sobre Mercedes Baptista, surgiu quando eu já era professor na Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e o então prefeito do Rio de Janeiro abriu por um edital de bolsas de pesquisa RIOARTE. Naquele momento, sabendo do meu papel como professor de História da Dança, da importância de Mercedes Baptista tanto para nossa escola, como para dança e luta antirracista negra em geral, montei o projeto de pesquisa. Fui contemplado com a bolsa. Desenvolver a pesquisa foi um momento maravilhoso, além de poder conviver com a bailarina, pude encontrar e realizar longas entrevistas com pessoas que eu admirava muito como: Abdias Nascimento, Ruth de Souza, Walter Ribeiro, Celso Cardoso, Edmundo Carijó, entre outros. Posteriormente, o livro, em sua primeira edição, “Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança” foi publicado pela Fundação Palmares por intermédio do ator Antônio Pompeo a quem sou muito grato. Eu sempre defendi a importância da representatividade em sala de aula, pela minha própria história de vida. Foi o trabalho de alguns professores que ao me apresentarem nomes negros que permitiu que eu pudesse caminhar. Então trazer Mercedes Baptista, Consuelo Rios, Raul Soares, Betânia Nascimento, Bruno Rocha, dentre outros bailarinos negros para as aulas é uma constante no meu fazer pedagógico. Neste sentido, o livro foi a materialização de uma prática.

Sarau de Grã finos: No seu livro 'EEDMO 90 Anos', o senhor registrou os novos desafios da formação de bailarinos para o século XXI. Agora, faltando apenas um ano para o centenário, quais desses desafios foram superados e qual "capítulo extra" o senhor escreveria hoje para descrever a resiliência da escola nesta reta para os 100 anos, especialmente diante das transformações tecnológicas e sociais da última década?

Paulo Melgaço: Pensar em desafios, é uma constante no nosso cotidiano. Eles são muitos e se ressignificam a cada momento. Um deles é a falta de verbas. Todas as entrevistas com antigos diretores desde Maria Olenewa serão pontuadas pelas dificuldades financeiras. Somos uma Escola Pública pertencemos a Fundação Teatro Municipal, temos uma excelente Presidente Clara Paulino que nos atende em tudo que é possível. Outro grande desafio é a rapidez do tempo presente, do imediatismo dos acontecimentos. Neste sentido, os jovens querem que tudo aconteça no agora, e nos trabalhamos com ballet clássico, o processo ensino aprendizagem é lento, necessita de amadurecimento, o corpo precisa receber informações e processar o conhecimento a seu tempo. O curso completo dura nove anos e muitos jovens não querem esperar, querem antecipar o processo, buscam uma série de informações via internet e acabam queimando etapas. Assim, acredito que um dos nossos grandes desafios do momento é conseguir oferecer um trabalho de excelência, respeitando o tempo de formação e ao mesmo tempo respondendo de maneira consciente as necessidades da geração atual e do próprio mercado de trabalho que exige corpos capazes de dançar/movimentar em todas as linguagens da dança. Neste sentido, o “capitulo extra” a ser escrito enfatizará para além das questões colocadas acima, a luta dos movimentos sociais pelo reconhecimento e ocupação de espaço. Com isso, mostrará uma escola e consequentemente um corpo de baile no Theatro Municipal muito mais diversa e multirracial. Assim, destacando mais um dos grandes desafios que é reconhecer e trabalhar o direito de corpos negros e indígenas de dançar ballet clássico, obviamente respeitando os limites desta linguagem artística. E deste desafio surge meu grande sonho: um dia assistir um ballet que traga uma bailarina negra retinta como protagonista. Bailarino negro retinto vivendo um príncipe, já conseguimos assistir. Falta agora uma princesa e este é mais um desafio!!!!!

Sarau de Grã Finos: A sapatilha de ponta é, muitas vezes, o item que define a permanência nos estudos de um talento na dança, dado o seu alto custo e curta durabilidade. Como a Escola tem conseguido sensibilizar a sociedade civil e o setor privado para entender que a doação não é um brinde, mas sim um investimento em um 'instrumento de trabalho' essencial para que o aluno da escola pública chegue ao nível profissional?

Paulo Melgaço: Realmente trata-se de um item que apresenta uma série de questões no ballet clássico. A questão financeira é uma delas. Uma sapatilha tem custo alto, como escola pública não possuímos verba para doar diretamente as nossas alunas. Algumas oriundas de determinados projetos sociais que recebem verbas de patrocínio conseguem doação e manutenção das sapatilhas. Em outros casos, possuímos funcionárias muito atentas as necessidades das alunas, com isso, pedimos as bailarinas do Corpo de Baile que doem sapatilhas que não recebem e não utilizam para que possamos distribuir para nossas alunas. Então como vamos tentando equacionar esta questão. A cor da sapatilha é outra questão, pois traz a sensação de pertencimento. Assim, reconhecemos e apoiamos as alunas que desejam dançar com meias e sapatilhas com seus tons de pele.