O Hino, o Hexa e a Pátria de Chuteiras: A Música Pode Cura o Nosso Complexo

O New York Times escolheu o nosso hino como o mais bonito do mundo. Nelson Rodrigues explicaria: é a vitória do humano sobre o azar.

CRÔNICASGRÃFINÍSSIMO

Joana Aleixo é jornalista, produtora cultural e estudante de música

6/21/20263 min read

Ilustração gerada por IA

Se a Seleção Brasileira ainda não convenceu de que pode levar o hexacampeonato na Copa de 2026, o Hino Nacional já saiu como campeão, o que pode ser um presságio para sonharmos com o Hexa. Afinal, há menos de um mês, o Hino mal cantado por Alcione e Belo, segundo os torcedores, era um sinal de que a seleção não iria bem na Copa que ainda nem se iniciara. No entanto, o New York Times classificou o Hino Nacional Brasileiro como o mais bonito de todas as seleções que disputam o mundial. Um gol de placa.

O Hino Nacional Brasileiro já encantou muitos estrangeiros em outras épocas. E, de repente, esse título concedido pelo mais importante periódico americano seja um alerta de que nem tudo está perdido — tanto para o nosso hino, que bate recordes de interpretações frustradas nos dias atuais, quanto para o nosso time rumo ao hexa. Como diria Nelson Rodrigues na Pátria de Chuteiras: “Precisamos chutar o complexo para vencer”.

Certamente, independentemente de levarmos ou não a taça, o nível técnico dos jogadores de todas as seleções mudou muito. Não existe mais aquela máxima de que "essa ou aquela seleção não sabe jogar futebol"; todas têm suas chances e lutam de igual para igual para passar para as próximas fases do campeonato. E como o Brasil é o país da música e do futebol — não necessariamente nesta mesma ordem —, quero buscar a alma do torcedor brasileiro para valorizar, aqui na nossa casa, o que temos de melhor. Em uma de suas crônicas, Nelson Rodrigues escreve em “A Vitória do Humano”, de 1958, que o torcedor chora de tristeza, mas, redimido, descobre-se maravilhoso.

Vamos buscar em tempos longínquos a nossa essência. Há algum tempo, fui a um concerto de piano de uma japonesa que, ao se apaixonar pela música de Villa-Lobos, veio estudar no Brasil: Yuka Shimizu. No programa, ela, que tocou Villa-Lobos e Chiquinha Gonzaga, trouxe a canção “A Grande Fantasia Triunfal”. Composta em 1869 pelo americano de Nova Orleans Louis Moreau Gottschalk, é uma peça de bravura para piano, cheia de variações brilhantes, acordes poderosos e um ritmo contagiante que exalta o nosso hino, tendo sido dedicada à Princesa Isabel. De verdade, é incrível! Louis, muito apaixonado pelo Brasil e músico exímio, morreu aos 40 anos no país, vítima de febre amarela. Mas, antes desta fatalidade que lhe ceifou a vida, ele apresentou pela primeira vez “A Grande Fantasia Triunfal” em um megaconerto no Rio de Janeiro, regido por ele mesmo, que contou com a participação de mais de 600 músicos e dezenas de pianos no palco.

Gottschalk não foi o único a se apaixonar pelo Hino Nacional. A melodia da nossa composição também serviu de inspiração para outros virtuoses estrangeiros do século XIX, que criaram peças de bravura para homenagear o público local e a corte de Dom Pedro II. É o caso do renomado pianista austríaco Sigismund Thalberg, que aplicou sua famosa técnica de ilusão sonora na Grande Fantaisie sur l’Hymne National Brésilien (Op. 77), e do pianista português Arthur Napoleão, que trouxe o romantismo europeu para as suas Variações Brilhantes sobre o Hino Nacional Brasileiro. Além das teclas, a obra também ganhou os palcos dos sopros com o clarinetista italiano Federico Busoni, que transpôs a imponência da composição de Francisco Manuel da Silva para o seu instrumento na peça Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro para clarinete e piano.

Talvez — e aqui eu tenho certeza —, uma competição ao nível da Copa do Mundo seja muito sobre futebol, mas ainda mais sobre como nos vemos aos olhos de outros povos. Pois a alegria, o improviso e o amor a tudo que é peculiarmente brasileiro é o que mais nos valoriza. E esse valor não pode ser dado pelo outro, mas, sim, por nós mesmos. Afinal, o brilhante Nelson Rodrigues escrevia que nosso talento coletivo é maior que a dependência de um gênio. Ele segue em seus textos afirmando que o brasileiro nunca acha que perdeu porque o outro foi melhor: perde por azar, por praga, por culpa do destino ou do Sobrenatural de Almeida. É a recusa cega de aceitar a normalidade de uma derrota.

Bom, a moral do Hino Nacional já resgatamos nas ilustres páginas do New York Times. Agora nos resta torcer para que o Hexa venha, e que as vitórias no Brasil não sejam apenas no campo do futebol, mas no caráter do brasileiro em todos os aspectos.

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Joana Aleixo

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