O Mito Orfeu no Inferno de Ponta-Cabeça no Theatro São Pedro
Entre o violino rústico e o cancã infernal, a opereta de Offenbach traz uma heroína que troca o luto pela liberdade no submundo.
ÓPERAESTREIAS
4/15/20264 min read


Fotos: divulgação
A efervescência cultural que marca a temporada lírica de 2026 no Theatro São Pedro, a montagem de Orfeu no Inferno, de Jacques Offenbach, convida a uma reflexão profunda sobre a própria gênese do gênero operístico. Enquanto a opereta de Offenbach subverte o mito de Orfeu com ironia e o ritmo frenético do cancã, nos remete, por contraste, ao nascimento da ópera, em 1607, de Claudio Monteverdi — um momento em que a música foi convocada não para a sátira, mas para a restauração da tragédia grega. Orfeu no Inferno, de Jacques Offenbach (1819-1880), terá récitas em 17, 19, 22, 24 e 26 de abril, sob direção cênica de Cibele Forjaz e direção musical de André Dos Santos, à frente da Orquestra do Theatro São Pedro.
Diferentemente da versão consagrada - e trágica - da lenda, em que Orfeu, um renomado músico que fica inconsolável quando sua esposa, Eurídice, morre picada por uma cobra e tenta resgatá-la no reino de Hades, Offenbach propõe em sua obra uma releitura que ajudou a consolidar um gênero, a opereta. Semelhante à uma ópera ligeira, a opereta é uma produção músico-dramática caracterizada por mesclar elementos românticos e cômicos, com uma estrutura que intercala canções, música orquestral, cenas de dança elaboradas e diálogos falados.
Nesta versão, Orfeu não é o filho de Apolo, mas um rústico professor de violino. Assim como na história original, Eurídice é fatalmente mordida por uma serpente, mas, ao invés de morrer tragicamente, ela se muda para o submundo para ficar com Plutão. Orfeu, que fica feliz por se livrar da esposa, tem de ser intimado pela Opinião Pública para tentar resgatar Eurídice – e ambos ficam satisfeitos quando o resgate é malsucedido. Talvez Jacques Offenbach não tivesse outro intuito além de uma inversão cômica, porém, diferente do mito original e das óperas anteriores, em que Orfeu é o foco do enredo, em Orfeu no Inferno Eurídice também conduz a ação. Ao invés de passiva e frágil, ela é uma heroína que deseja liberdade e fantasia.
Musicalmente, além de citar de forma satírica a ópera de Gluck, Orfeu no Inferno combina minuetos cortesãos com ritmos, danças e canções populares. A música, no entanto, não se esgota na sátira, mas é também sedutora e cheia de poesia. Ao final, Offenbach inseriu uma dança que desde pelo menos 1840 fazia grande sucesso na França: o cancã. Seu “Galop infernal” é dançado durante uma celebração no submundo.


Para o maestro André Dos Santos, diretor musical da montagem no Theatro São Pedro, que regerá uma obra de Offenbach pela 12ª vez, trabalhar os títulos do compositor alemão é sempre um deleite. “É onde encontro uma leveza de expressão, uma inteligência no humor e na sátira, aliados a uma precisão rítmica, orquestração refinada e melodias que seduzem imediatamente o público”, afirma o condutor da Orquestra.
Segundo ele, o grande desafio de uma produção de Offenbach é justamente quebrar a barreira entre o cantor e o ator, em que o texto comande e ao mesmo tempo que esses atores sejam excelentes cantores. “Acredito que o público que estará presente nessas 5 récitas não ficará decepcionado com a excelente equipe de artistas reunidos nesta produção, no palco e no fosso. Uma obra grandiosa que encanta, diverte, incita e cura”, afirma o regente.
O Libreto que Escandalizou e Encantou Paris
Com libreto de Hector Crémieux e a colaboração de Ludovic Halévy, Orfeu no Inferno foi o primeiro grande sucesso de Offenbach e o que garantiu a sobrevivência do Théâtre des Bouffes-Parisiens, fundado por ele em Paris em 1855. No espaço, o compositor apresentou uma série das suas próprias pequenas peças, muitas das quais se tornariam extremamente populares.
Em 1858, após a flexibilização de restrições da prefeitura de Paris sobre números de elenco para produções como as de Offenbach, que podiam ter no máximo três cantores, por exemplo, em face da rápida popularização da opereta que ameaçava a venda de ingressos dos teatros convencionais, o compositor ficou livre para levar adiante uma obra que estava em sua mente há algum tempo: uma sátira ferina de uma ópera ainda popular em sua época, Orfeu e Eurídice, de Gluck. A escolha não foi à toa: enquanto Offenbach elaborava Orfeu no Inferno, a ópera de Gluck estava sendo preparada para ser posta em cena no Théâtre Lyrique, um dos mais importantes de Paris, por Héctor Berlioz, crítico ferrenho das obras do colega de origem alemã.
Na França do século XIX, tais produções eram altamente satíricas e tinham no compositor alemão seu principal autor. Se a primeira ópera do mundo, Dafne, nasceu para elevar o espírito humano à dignidade dos mitos, a obra de Offenbach nos lembra que, às vezes, é preciso rir desses mesmos mitos para compreender a nossa própria humanidade. Entre o rigor de 1598 e a irreverência de 2026, o palco continua sendo o lugar onde, entre o canto e o diálogo, a vida se revela em toda a sua complexidade — seja ela trágica ou deliciosamente cômica.
Ensaio geral aberto e gratuito: 15 de abril, 19h, Theatro São Pedro
Récitas: 17, 19, 22, 24 e 26 de abril
Quartas e sextas-feiras às 20h; domingos às 17h, Theatro São Pedro
Classificação etária: 16 anos
Ingressos: R$ 41 (meia-entrada) a R$ 124 (inteira), aqui