O Riscado de Gabriel Henrique Consagra o Passinho como Patrimônio do Rio.

Ao levar o Passinho para novos horizontes, o dançarino desafia estigmas e reafirma a dança nascida nos bailes funks como uma potência técnica e cultural inquestionável.

ENTREVISTASGRÃFINÍSSIMO

4/20/20263 min read

Fotos: arquivo pessoal

A cultura constrói pontes onde muitas vezes existiam muros. Em cidades como o Rio de Janeiro, onde os abismos sociais são gigantes, um novo gênero de dança e um artista florescem em meio ao caos urbano: o Passinho e o dançarino Gabriel Henrique. Natural de Belford Roxo, o artista, que estuda a linguagem urbana há mais de uma década, tornou-se o rosto dessa modalidade de origem genuinamente carioca, o Passinho, que em 2017 foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. O status de patrimônio é um escudo importante contra a tendência histórica de marginalizar as manifestações populares.

"Me sinto realizado por estar levando a cultura periférica a ganhar vivência e quebrar barreiras. Sinto que estou representando minhas raízes e todos os meus colegas — não só do passinho, mas também a galera do funk, da capoeira e do samba, que são desvalorizados mundo afora - afirmou o dançarino de Passinho, Gabriel Henrique.

A participação de Gabriel Henrique na ópera-balé Carmina Burana não foi apenas uma performance, mas uma oportunidade de elevar uma dança periférica ao status mais alto da cultura brasileira: o Theatro Municipal. Para ele, estar ali representa a vitória de uma dança que nasceu no Baile do Jacarezinho e ainda enfrenta muitos preconceitos. "Fico muito feliz de estar no Municipal representando uma dança periférica que vem preenchendo seu espaço no Rio, no Brasil e no mundo", afirma o dançarino.

Gabriel não foi apenas um intérprete durante os ensaios forneceu "chaves" de movimentação para dançarinos de outras formações para que pudessem alcançar a sincronização e a musicalidade frenética do Passinho. O desafio maior foi a troca, mostrar que o Passinho dialoga com o frevo e a capoeira, exigindo uma consciência corporal assim como qualquer outra técnica acadêmica. A cena da Taberna é, segundo Gabriel, o ápice dessa fusão. É o momento em que a obra de Carl Orff se despe da rigidez para abraçar o caos e a celebração. Ali, a mistura de linguagens — do clássico passando do contemporâneo ao passinho — revela status a técnica da periferia. "À medida que os ensaios aconteciam, a coisa foi ganhando forma. A cena da Taberna me toca muito porque o Passinho se destaca ali, representando uma dança que começou no baile e hoje preenche seu espaço na cultura brasileira." - revelou Gabriel Henrique

A trajetória de Gabriel e a valorização do Passinho ecou também na Marquês de Sapucaí em 2025. No desfile da Mangueira, o público foi impactado pela imagem de um tripé histórico que se transformava em uma favela viva. Daquela estrutura, saíam dançarinos de Passinho, celebrando a "coroação do cria" e mostrando que a laje e o asfalto são celeiros de um povo que ama sua cultura e a reinventa. Para Gabriel Henrique, o problema nunca foi a cultura em si, mas as narrativas de medo construídas socialmente.A ascensão do Passinho é vitória de Gabriel que desde os oito anos se dedica a essa modalidade de dança, dando aulas na comunidade onde cresceu. Essa é a prova de que o riscado do passinho não cabe mais apenas nos becos; ele é a coreografia de um Rio de Janeiro que, finalmente, começa a se olhar no espelho sem medo de sua própria identidade.

“Existe uma tendência de criminalizar e marginalizar as manifestações populares, especialmente as periféricas. O medo, muitas vezes, é construído socialmente, sem necessariamente ser vivido de forma real. Ou seja: o problema não é a cultura em si, mas a narrativa construída ao redor dela. Isso só muda quando começa a enxergar essa arte como mercadoria; aí, tudo se torna compreensível, lindo e 'agradável' aos olhos do mercado, pois vira fonte de lucro para quem antes era marginalizado. Assim, por conveniência, ela acaba sendo aceita”- sentenciou o jovem artista.