O triunfante retorno de Salvator Rosa nos 117 anos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Oito décadas após sua última encenação, a mais italiana das obras de Carlos Gomes ganha nova montagem com mais de 340 figurinos, unindo pintura, revolução e música.
ÓPERAGRÃFINÍSSIMOESTREIAS
7/8/20264 min read


Foto: Saleyna Borges
Em julho de 2026, a cena lírica brasileira testemunhará um evento de magnitude histórica indiscutível. Após um hiato de oito décadas, com sua última execução datado de 1946 , a ópera Salvator Rosa, de Antônio Carlos Gomes, retorna ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Muito além de uma simples reestreia, a nova montagem atua como o vértice de um tríplice marco comemorativo: celebra os 117 anos do mais emblemático teatro lírico do país, homenageia os 190 anos de nascimento de Carlos Gomes e reverência os 130 anos de falecimento do maior expoente da ópera oitocentista nas Américas. Com patrocínio oficial da Petrobras, a montagem reúne os três corpos artísticos do Theatro Municipal — Coro, Ballet e Orquestra Sinfônica —, sob a concepção e direção cênica de Julianna Santos e a direção musical e regência de Luiz Fernando Malheiro. O figurino, idealizado pelo mestre da indumentária operística Marcelo Marques, conta com mais de 340 peças minuciosamente pensadas para a grande encenação. As apresentações acontecem nos dias 12 de julho (estreia, às 17h), 14 (sessão gratuita, às 19h), 15, 17 e 18 (às 19h). Os ingressos estão à venda na bilheteria do Theatro Municipal e pelo site oficial.
A relevância histórica dessa remontagem fundamenta-se na própria trajetória criativa do compositor. Concebida em um curto intervalo de seis meses, um recorde para o minucioso e dedicado CG, e estreada em março de 1874 no Teatro Carlo Felice, em Gênova, Salvator Rosa surgiu como uma resposta vital de Carlos Gomes após a conturbada recepção do público à Fosca (1873). Se esta última fora acusada pela crítica de um excessivo experimentalismo e wagnerismo, Salvator Rosa, com libreto de Antonio Ghislanzoni baseado no romance Masaniello, de Eugène de Mirecourt, reconfigurou o estilo do maestro campineiro. Ao aliar melodias diretas, vigor dramático e uma orquestração refinada sob a influência da "parola scenica verdiana", a obra conquistou triunfo imediato. Tornou-se um fenômeno de público, a ponto de abrir as temporadas dos principais teatros italianos entre 1876 e 1877 e ser aclamada em sua chegada ao Brasil.
“Em Salvator Rosa, o maestro Gomes procurou e obteve uma simpática conciliação entre duas exigências quase sempre opostas: do público e da arte. Escreveu uma bela música, fácil, direta, elegante, melódica, de efeitos imediatos, evitando as trivialidades, as vulgaridades e a prolixidade de quem, não sabendo criar, copia mal os outros. Duas outras qualidades de Gomes são a segurança, a potência da interpretação dramática e a riqueza da instrumentação. O seu instrumental é rico, elegante e robusto.” — Trecho da crítica sobre Salvator Rosa, no livro Força Indômita, de Marcus Góes.


Autorretrato de Salvator Rosa (c. 1645)
No Brasil, a recepção da ópera ocorreu pela primeira vez em 28 de setembro de 1876, no Teatro Lírico Fluminense, no Rio de Janeiro, consolidando o sucesso da obra. Em 29 de julho de 1882, foi a vez de Belém recebê-la e, somente em 1946, a produção chegou ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no qual permaneceu ausente até os dias atuais. Esta remontagem devolve ao público uma das páginas mais expressivas da produção operística nacional. A obra é dedicada ao engenheiro e abolicionista André Rebouças, por quem Carlos Gomes tinha imenso apreço e amizade. Rebouças não pôde estar presente na estreia em Gênova, fato lamentado por Gomes, mas foi através de seus diários pessoais que se obteve grande parte das informações sobre a concepção de Salvator Rosa.
“Após reger Salvator Rosa em Manaus, dentro da cooperação entre o Festival Amazonas de Ópera e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, fico feliz em estar participando dessa recondução da linda ópera de Antônio Carlos Gomes ao repertório desta casa, onde tive a satisfação de reger Il Guarany e Condor, ambas em forma de concerto, em anos anteriores. Nosso maior compositor do século dezenove precisa estar sempre presente nas programações dos nossos teatros”, afirma Luiz Fernando Malheiro, diretor musical e regente.
O retorno do título ao palco carioca traz consigo uma proposta cênica e dramatúrgica de alta relevância conceitual, propondo uma ponte estética entre as artes plásticas e a lírica: as próprias pinturas do artista Salvator Rosa, figura central do enredo ambientado na Revolução Napolitana do século XVII, deixam a contemplação passiva dos museus para se tornarem elementos ativos da narrativa visual.
“Esta montagem convida o público a revisitar a Revolução Napolitana do século XVII por um olhar atual. As pinturas de Salvator Rosa deixam os museus e passam a integrar a narrativa da ópera: cada obra foi escolhida para dialogar com a dramaturgia, ampliando a força visual e emocional do espetáculo”, ressalta Julianna Santos, diretora cênica.
Ao reunir o apogeu técnico da maturidade de Carlos Gomes, a memória institucional do Theatro Municipal e uma leitura contemporânea da revolta popular italiana e do romantismo do século XIX, a montagem de Salvator Rosa não apenas repara um injusto esquecimento de 80 anos, mas reafirma a urgência de manter a obra do maestro viva, pulsante e central no repertório da música de concerto brasileira.