Saber o Hino Nacional de cor deveria ter a mesma importância de cantar "Faroeste Caboclo" inteirinha sem errar uma linha.
O descompasso dos artistas no Maracanã nos lembra que o Brasil precisa, urgentemente, reaprender a ouvir seus próprios símbolos.
CRÔNICAS
Joana Aleixo é jornalista, produtora cultural e estudante de música.
6/2/20264 min read


Nas próximas semanas, vamos vivenciar a onda “verde e amarela” invadindo as ruas, bares e casas de todos os brasileiros. E mesmo que o espírito canarinho não seja o mesmo de outrora, na hora do jogo, todos somos torcedores. Nessa vibração nacionalista, a seleção brasileira — assim como soldados indo à guerra — carrega toda a apreensão de um povo que espera a vitória. No entanto, a cada apresentação, há um momento sagrado: a execução do Hino Nacional Brasileiro. Pela televisão, vemos nossos jogadores com a mão no peito, balbuciando algo entre os lábios, sem saber se sabem ou não cantar. E é sobre esse hino que quero prosear.
Se a seleção já não empolga mais como antes, a recente vitória do Brasil sobre o Panamá ganhou um capítulo histórico à parte: o fiasco da apresentação dos cantores Belo e Alcione ao tentarem entoar o Hino Nacional em pleno Maracanã — estádio que homenageia o Jornalista Mário Filho que, para quem não sabe, além de ter idealizado o clássico Fla x Flu, era irmão de Nelson Rodrigues. Mas, sem perder o foco, a cantoria de Alcione e Belo parecia uma “fuga” muito louca. O descompasso foi tão grande que a internet não perdoou. Teve internauta brincando que "o Belo estava cantando no México e a Alcione no Canadá", em uma piada espirituosa com as sedes da próxima Copa.
Então, vamos aos fatos. Existe legislação rigorosa que prevê as condições nas quais o Hino Nacional deve ser executado. O Decreto nº 70.274/72, no Artigo 25, parágrafo primeiro, determina que a execução será instrumental ou vocal, de acordo com o cerimonial previsto. Já a famosa Lei nº 5.700/71 dispõe sobre os quatro símbolos nacionais, deixando claro que não há hierarquia entre eles. O recomendado é apenas adotar uma postura de respeito. Caso haja uma banda ou intérprete, é de bom tom virar-se em direção a eles, em respeito ao trabalho dos artistas. Além disso, até alguns anos atrás, era comum vermos apenas a primeira parte do hino ser tocada em eventos esportivos por questões de tempo de transmissão, mas a legislação sempre previu sua integridade na forma cantada.
O Hino Nacional e o da Bandeira são as insígnias máximas do patriotismo. Um povo que não conhece ou não respeita tais símbolos é um povo sem memória, sujeito a ter sua história sequestrada por qualquer aproveitador — vide o caso recente da nossa bandeira ter sido excessivamente associada à extrema direita.


Historicamente, o hino nasceu em 1831. Segundo historiadores, a melodia foi composta por Francisco Manoel da Silva por ocasião da abdicação de Dom Pedro I. Em 1890, logo após a Proclamação da República, o Decreto nº 171 oficializou a marcha como Hino Nacional. Já em 1909, uma comissão liderada pelo compositor Alberto Nepomuceno foi criada para escolher a letra oficial, consagrando os versos de Joaquim Osório Duque Estrada. O que pouca gente sabe é que a introdução instrumental já possuiu uma letra, atribuída a Américo de Moura ("Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever..."), que acabou excluída da versão oficial de 1922, às vésperas do Centenário da Independência.
A Lei nº 5.700 dita que o hino deve ser ouvido de pé e em silêncio. Embora ninguém vá preso por isso hoje em dia, o desrespeito flagrante já foi considerado contravenção. Mas o verdadeiro crime, às vezes, é musical. Nomes consagrados como Vanusa (2009), Fafá de Belém (2009), Luan Santana (2011) e Carlinhos Brown (2014) já protagonizaram fiascos memoráveis, cada um com seu "toque pessoal" de esquecimento ou desafinação.
A geração do meu pai, por exemplo, sabe cantar tanto o Hino Nacional quanto o Hino à Bandeira. Na minha época, o hino ainda era obrigatório nas escolas. Na infância, além de cantá-lo na quadra debaixo de um sol de rachar, eu curtia as letras impressas na contracapa dos livros didáticos. Saber a letra era algo que me orgulhava. Em eventos esportivos na TV, eu ficava frustrada quando cortavam a segunda parte. Ora, eu sabia o hino inteiro e queria cantar!
Em 2022, logo no início dos meus estudos de música, entrei para uma pequena Orquestra Municipal. Fui mais para "fazer número", mas participava religiosamente dos ensaios, e o Hino Nacional estava no repertório. Tenho guardada até hoje na minha pasta a partitura com um arranjo em Si Bemol Maior, diferente do tom oficial em Fá Maior. Eu sabia que ainda não conseguia tocá-lo direito, mas prestava atenção a cada nota. No dia da apresentação, lá estava eu com meu violino. Na hora do hino, fiquei em posição de respeito enquanto os veteranos tocavam. Foi emocionante. Ali começou uma nova obsessão: conseguir tocar o Hino Nacional. Quatro anos se passaram; ainda não cheguei nesse nível técnico, mas sei que vou chegar.
Cantar, tocar ou ouvir o Hino Nacional exige respeito e protocolo. Se não sabe, ensaie; se mesmo ensaiando não consegue, dê a oportunidade para quem possa executá-lo com a devida dignidade. Para mim, saber o Hino Nacional de cor tem exatamente o mesmo valor de saber cantar "Faroeste Caboclo" inteirinha sem errar uma linha.