Setembro Amarelo: a urgência do cuidado em saúde mental para a população em situação de rua

A vulnerabilidade social e o sofrimento psíquico formam um ciclo perverso nas metrópoles. Iniciativas como o projeto Recomeçar é Possível mostram que o acolhimento contínuo e a escuta ativa são os primeiros passos para reconstruir vidas.

9/10/20263 min read

Foto: Divulgação

A relação entre a deterioração da saúde mental e o desamparo social revela uma das facetas mais dolorosas da desigualdade urbana no Brasil. Pessoas com histórico de transtornos mentais têm entre 10 e 20 vezes mais chances de acabar em situação de rua, segundo um estudo conduzido em São Paulo e publicado em 2024 na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Uma vez expostas à vulnerabilidade extrema das calçadas, cerca de 30% dessas pessoas passam a conviver com algum problema de saúde registrado — sendo o sofrimento psíquico a segunda causa mais frequente de adoecimento, atrás apenas da hipertensão.

O cenário expõe uma engrenagem difícil de romper: a falta de assistência psicológica muitas vezes empurra o indivíduo para a marginalização, e a rotina nas ruas, por sua vez, aprofunda a depressão, a ansiedade e o trauma. Mais do que a ausência de um teto, a convivência diária com a violência, a precariedade e o estigma impõe um isolamento social devastador.

O isolamento e a força do acolhimento

No Centro do Rio de Janeiro, o projeto Recomeçar é Possível (RéP) — realizado pela People’s Palace Projects Brasil e pelo Instituto LAR, em parceria com a Petrobras — busca intervir exatamente na reconstrução dessas pontes humanas. Localizado na Rua do Senado, nº 200, o espaço atende uma população heterogênea: jovens, idosos, homens, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, em sua maioria pretas e pardas.

Muitos dos assistidos chegam ao local após semanas ou meses sem trocar palavras significativas com ninguém. Por isso, antes mesmo da oferta de cursos de geração de renda, a prioridade da equipe está na garantia da dignidade básica — como um banho quente, comida e local seguro para pertences — aliada à escuta empática.

"Lutar não significa nunca cair. Significa encontrar motivos para levantar, seguir em frente e pedir ajuda quando necessário. Cada pessoa trava batalhas que às vezes não podem ser vistas. Reconhecer nossas lutas também é reconhecer a nossa capacidade de sempre seguir em frente."— Marcos Henrique, participante do projeto RéP.

A fala de Marcos, proferida durante uma das oficinas semanais de arteterapia do projeto, sintetiza a importância de espaços de fala onde o sujeito vulnerável deixa de ser apenas uma estatística para recuperar a própria identidade e o sentimento de pertencimento.

Estrutura social e o alerta para além de setembro

A dimensão da busca por auxílio no país transparece nos dados do Centro de Valorização da Vida (CVV). Responsável por idealizar a campanha Setembro Amarelo em 2015, a instituição atende atualmente mais de 14 mil ligações diárias pelo telefone 188. O volume evidencia uma carência nacional de espaços de escuta — gargalo que se afunila ainda mais quando aplicado à população de rua, cujo acesso à rede pública de saúde mental costuma ser fragmentado. A coordenação do RéP destaca que a resolução do problema exige superar visões simplistas que individualizam o sofrimento, reconhecendo os fatores estruturais que adoecem a população periférica e vulnerável.

"A desigualdade social é uma das principais causas estruturais da vulnerabilidade social e também um fator de risco à saúde mental de quem vive em situação de rua. A precariedade das condições de vida, a exposição à violência e o isolamento tornam essa população mais próxima de quadros de adoecimento mental e do uso abusivo de substâncias, e dificultam ainda mais o acesso ao cuidado. É preciso que o encaminhamento aos serviços de saúde mental chegue todos os dias do ano a quem mais precisa, substituindo julgamento por acolhimento, escuta ativa e atendimento psicológico e psiquiátrico especializado." — Ana Paula Rios, coordenadora do RéP.

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Joana Aleixo

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jornalista/produtora cultural

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