Theatro Municipal de São Paulo propõe reflexão sobre o futuro em sua programação 2026.
A temporada destaca clássicos operísticos como Tristão e Isolda, Don Carlo e Andrea Chénier, além de obras modernas e criações contemporâneas como O amor das Três Laranjas, Intolleranza, uma nova obra da brasileira Jocy de Oliveira ao lado de Stravinsky. A Orquestra Sinfônica Municipal com programas com enfoque em como diversas culturas influenciaram a formação da identidade musical brasileira.
ESPETÁCULOSGRÃFINÍSSIMO
1/15/20269 min read


Fotos: Rafael Salvador
A partir do questionamento: “o que deixamos para trás quando o mundo, como o conhecemos, colapsa?”, a temporada 2026 do Theatro Municipal de São Paulo se propõe a pensar um legado. Enquanto a temporada de 2025 consolidava mudanças e tornava a programação do Theatro Municipal naturalmente diversa, multifacetada, inventiva e plural, a nova temporada se propõe a aprofundar essa jornada, convidando o público a uma reflexão profunda sobre a nossa condição humana e sobre o que deixaremos para as futuras gerações.
Entre os destaques na óperas, clássicos como Tristão e Isolda, Don Carlo, Andrea Chénier, obras modernas como O amor das Três Laranjas, Intolleranza, e combinações contemporâneas como uma nova criação da brasileira Jocy de Oliveira ao lado de Édipo Rei; na série de concertos da Orquestra Sinfônica Municipal, teremos programas regidos pelo maestro titular Roberto Minczuk, e regentes convidados como a maestra taiwanesa-americana Mei-Ann Chen, o zimbabuano-americano Vimbayi Kaziboni e o grande compositor e regente chinês Tan Dun, além da participação do Coral Paulistano, Coro Lírico e solistas convidados; já na série do Coral Paulistano, o grupo traz uma programação que celebra 90 anos com uma seleção de obras representativas do passado, presente e futuro; o Quarteto de Cordas da Cidade apresenta uma série com diálogos entre grandes nomes como Mozart, Haydn, Price, Schumann e outros; por fim, o Balé da Cidade de São Paulo inclui nas suas assinaturas novas criações de Renan Martins, Andrea Peña, Michelle Moura e uma reapresentação de Réquiem SP, coreografia do diretor artístico da companhia Alejandro Ahmed, que foi sucesso de crítica e público em 2025.


Clássicos, modernos e contemporâneos: a temporada de ópera 2026
Dando início a temporada de óperas, nos dias 27 e 28 de fevereiro, e 01, 03, 04, 06 e 07 de março, o Theatro Municipal de São Paulo apresenta ao público a remontagem de um grande sucesso da temporada 2022, O Amor das Três Laranjas, de Sergei Prokofiev, com libreto baseado na peça teatral L'Amore delle tre melarance, de Carlo Gozzi, concebida por Luiz Carlos Vasconcelos e direção cênica de Ronaldo Zero.
O enredo da ópera flerta com o surrealismo fantástico numa tentativa de modernizar a Commedia dell’Arte, narra a saga de um rei para curar a melancolia de seu filho. Para isso, convoca uma série de entretenimentos não sem o antagonismo de personagens típicos dos contos de fadas. A musicalidade, espirituosa e inventiva, transita entre os limites da música russa e a tradição romântica.
A segunda ópera da temporada será Intolleranza, ópera com música e libreto de Luigi Nono, a partir de uma ideia de Angelo Maria Ripellino, apresentada nos dias 29, 30 e 31 de maio e 02, 03, 05 e 06 de junho. Caracterizada pelo seu autor como uma azione scenica, a obra conta a história de um trabalhador migrante que é preso e levado a um campo de concentração. A concepção e direção cênica ficará a cargo de dois grandes nomes da arte contemporânea brasileira: Nuno Ramos e Eduardo Climachauska.
Intolleranza é uma criação de vanguarda especialmente em uso de técnicas experimentais como imagens projetadas, texto, filme e sons eletrônicos. Uma ópera pouco conhecida do público brasileiro, muito ousada e importante para a renovação da criação artística no século XX. Em 2026, o palco do Theatro Municipal de São Paulo apresentará esta obra pela primeira vez na América Latina.
Em seguida, será apresentado Tristão e Isolda, um clássico de Richard Wagner, baseado na lenda medieval contada por Gottfried von Strassburg, nos dias 22, 26, 29, 31 de julho e 02 de agosto. Descrita pelo próprio Wagner como o trabalho mais audacioso de sua vida, Tristão e Isolda expande o tonalismo e a harmonia convencional introduzindo recursos orquestrais que caracterizam a obra do compositor. A montagem marca o retorno da diretora Daniela Thomas ao palco do Theatro Municipal de São Paulo, e terá como protagonistas o tenor Simon O’Neill e a soprano Annemarie Kremer.
Baseado na versão de Gottfried von Strassburg de um dos mais icônicos mitos da literatura medieval e na filosofia de Arthur Schopenhauer, o enredo traz a relação que nasce a partir de uma poção de amor ingerida acidentalmente por Tristão e Isolda. Este feitiço só se desfaz quando o Rei Marke, tio de Tristão e marido de Isolda, descobre o relacionamento proibido.
Ainda no repertório de grandes clássicos incontornáveis, nos dias 18, 19, 20, 22, 23, 25 e 26 de setembro, o Theatro Municipal de São Paulo apresenta Don Carlo, ópera de Verdi, com libreto de Joseph Méry e Camille du Locle em versão italiana. Após vinte anos sem ser apresentada no Brasil, Don Carlo retorna ao palco do Municipal em grande elenco: o tenor brasileiro Atalla Ayan, assume o papel-título de Don Carlo; o baixo Luiz-Ottavio Faria, consagrado por interpretar o Grande Inquisidor, estreia no papel de Filipe II; e a celebrada soprano Ailyn Pérez, em sua primeira ópera completa no Brasil. A encenação e iluminação será de Caetano Vilela, destaque no mundo da ópera tendo realizado dezenas de produções em importantes teatros no Brasil e no Exterior. Dentre as óperas que dirigiu, destacam–se A Queda da Casa de Usher, de Phillip Glass (2005), Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Shostakovich (2007), Ariadne em Naxos, de Richard Strauss (2008).
Nesta obra, que teve estreia em 1867, Verdi destaca a tensa trama amorosa, um triângulo um tanto incestuoso, numa narrativa estruturada em torno de três grandes eixos temáticos: o conflito entre Estado e Igreja, o embate entre pai e filho, e o contraste entre duas visões de mundo, simbolizado pela oposição entre o idealismo liberal do Marquês de Posa, defensor da autonomia dos povos, e a figura autoritária de Filipe II, representante do absolutismo monárquico.
Já a double bill escolhida para temporada 2026, nos dias 30 e 31 de outubro e 01, 03, 04, 06 e 07 de novembro, conta com dois compositores da música moderna cujas trajetórias se cruzam: a curitibana Jocy de Oliveira e o russo Igor Stravinsky. Os dois artistas trabalharam juntos e foram contemporâneos, sendo o compositor russo fonte de grande influência para um dos maiores nomes da música brasileira. A direção cênica da nova composição de Jocy ficará a cargo da diretora piauiense Ana Vanessa, e Georgette Fadel assume Édipo Rei, ambas fazendo suas estreias como diretores cênicas no palco do Municipal.
Celebrando os 90 anos da artista, o Theatro encomenda a Jocy uma nova ópera. Com sua extensa produção como compositora, escritora, pianista e artista multimídia, foi pioneira da música eletroacústica no Brasil, compôs onze óperas, incluindo Fata Morgana, a primeira ópera composta por uma mulher a ser encenada no Theatro Municipal de São Paulo. Ao lado da nova obra de Jocy, será apresentada a ópera-oratório Édipo Rei, de Igor Stravinsky, estreada em 1927 em Paris. Esta ópera faz parte do chamado período neoclássico do compositor russo e nasce de sua parceria com um dos maiores nomes do teatro francês do século XX, Jean Cocteau, importante nome do surrealismo e teatro do absurdo.
Por fim, o Theatro Municipal de São Paulo encerra a temporada com Andrea Chénier, a grande ópera em quatro atos do compositor Umberto Giordano, com um libreto italiano de Luigi Illica, nos dias 27, 28 e 29 de novembro e 01, 02, 04 e 05 de dezembro. A ópera é baseada na vida do poeta francês André Chénier, que foi executado durante a Revolução Francesa. O libreto gira em torno do amor entre Andrea e Maddalena, e do caos político e social com características essenciais do verismo então em voga. A ópera foi escrita em quatro quadros em 1896 e estreou em sucesso triunfal no Teatro Alla Scala de Milão. Essa montagem será responsabilidade da dupla Caio Araujo, carnavalesco da Mocidade Alegre, e Carla Camurati, consagrada diretora de ópera, cineasta, roteirista, produtora cultural e atriz brasileira.


Diversidade de culturas e identidade brasileira nos concertos da Orquestra Sinfônica Municipal
Na abertura de concertos da temporada, a Orquestra Sinfônica Municipal apresenta Floresta Brasileira nos dias 23, 24 e 25 de janeiro. Com Priscila Bomfim na regência e Hércules Gomes no piano, a apresentação tem a exuberância da natureza brasileira como guia. Começando com Da Terra, da paraense Cibelle Donza, o concerto segue com uma obra do alagoano Hekel Tavares, que atuou como compositor, maestro e arranjador. Por fim, Alegres Trópicos: um baile na mata atlântica, de Gilberto Mendes, e Choros nº 10, Rasga o Coração, de Heitor Villa-Lobos.
Outro destaque do início do ano é o concerto Quadros Sinfônicos, nos dias 27 e 28 de março, com regência da maestra taiwanesa radicada nos Estados Unidos Mei-Ann Chen, que é diretora musical da Sinfonietta de Chicago e regente laureada da Orquestra Sinfônica de Memphis. O concerto começa com a Dança de Saibei, de An-Lun Huang, inspirada nas tradições do norte da China. Em seguida, será apresentado o Concerto para Violino nº 1 de Prokofiev, obra escrita no início da carreira do compositor russo. A finlandesa Kaija Saariaho está presente no programa com Nymphéa Reflection. O programa encerra com a suíte do balé O Pássaro de Fogo, obra que consagrou Stravinsky em Paris.
Em celebração do feriado, o maestro titular da Orquestra, Roberto Minczuk, rege nos dias 3 e 4 de abril o Concerto de Páscoa. Com a participação especial de Reynaldo González Fernández, dançarino afro-cubano, e Alfredo Tejada, cantaor, a apresentação tem em seu programa a Paixão Segundo São Marcos, do argentino Osvaldo Golijov, escrita em 2000 para as celebrações dos 250 anos da morte de Bach.
Em seguida, nos dias 24 e 25 de abril, sob a regência de Ricardo Bologna e com Paulo Álvares ao piano, a orquestra apresenta o concerto Arquiteturas do Som, que explora texturas, ritmos e estruturas sonoras inovadoras do século XX. A abertura será com Psappha, de Iánnis Xenákis, obra inspirada nos ritmos da poesia grega antiga. O programa inclui também o Concerto para piano e orquestra, de György Ligeti, destaca o virtuosismo rítmico e a complexidade harmônica. Após o intervalo, o programa se encerra com o Concerto para orquestra, de Witold Lutosławski, combinando técnica e lirismo com vigor sinfônico. O concerto também contará com uma composição de Marcos Balter, intitulada Orum.
Já tradicional no repertório anual da Sinfônica Municipal, a temporada 2026 dará continuidade na série de Gustav Mahler. Nos dias 1 e 2 de maio, a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico Municipal e o Coral Paulistano, sob a regência de Roberto Minczuk, apresentam When the World as You’ve Known It Doesn’t Exist, da premiada compositora norte-americana Ellen Reid. Em sequência, a grandiosa Sinfonia nº 8, de Gustav Mahler, também conhecida como Sinfonia dos Mil. Dividida em duas partes, ela une o hino Veni, Creator Spiritus à cena final do Fausto, de Goethe.
Nos dias 8 e 9 de maio, sob a regência do maestro zimbabuense Vimbayi Kaziboni, a Orquestra Sinfônica Municipal apresenta um programa contemporâneo intitulado como Ecos de Berio, que reflete questões atuais por meio da música. A noite começa com Dreydl, de Olga Neuwirth. Em seguida, He Stretches out the North..., de Hannah Kendal. Your Network is Unstable, de George Lewis, foi escrita em 2024. O programa se encerra com Sinfonia de Luciano Berio, para orquestra e oito vozes amplificadas, um marco da música do século XX.
Sob regência de Maíra Ferreira, nos dias 24 e 25 de julho, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano apresentam um programa que convida à reflexão e ao renascimento por meio da música vocal e coral com o concerto Despertar. A abertura é com In the swallow, da compositora americana Caroline Shaw, peça breve e delicada. Em seguida, o programa trará a obra Figura humana, de Francis.
Por fim, o grande compositor e regente chinês Tan Dun rege a Orquestra Sinfônica Municipal no concerto O Mundo de Tan Dun, em um programa dedicado à sua própria obra. O maestro ganhou notoriedade pela trilha de O Tigre e o Dragão, filme vencedor do Oscar em 2001, combinando elementos da tradição musical chinesa com linguagem orquestral ocidental.